It´s all about money. E definições.

It´s all about money. E definições.

Mercado e Tendências
8 de outubro de 2019 por Thiago Nakashima
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Um conjunto de regras sólido ajuda um bom funcionamento e compreensão de qualquer sistema. Os meios de pagamentos estão no início de uma revolução e a falta de definições mais claras gera confusões e desentendimentos. O lançamento da Libra foi um exemplo: batizada como a “criptomoeda do Facebook”, o anúncio pode sugerir algo igual ao
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Um conjunto de regras sólido ajuda um bom funcionamento e compreensão de qualquer sistema. Os meios de pagamentos estão no início de uma revolução e a falta de definições mais claras gera confusões e desentendimentos. O lançamento da Libra foi um exemplo: batizada como a “criptomoeda do Facebook”, o anúncio pode sugerir algo igual ao Bitcoin e com mesmo tipo de regulação. Esse é o caso mesmo?

O estágio inicial da transformação dos meios de pagamentos traz consigo uma falta de clareza quanto aos nomes e terminologias utilizadas, e apenas a discussão e evolução nos proverá de definições claras e objetivas para a confecção das regras para esse novo mundo que nos apresenta.

O texto está dividido em duas partes e não se propõe a definir as regras e sim apresentar uma metodologia capaz de diferenciar os mais diversos “tipos de dinheiro” existentes (e mesmo inexistentes): o modelo de “árvore do dinheiro” utilizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em julho de 2019. A primeira parte do texto apresenta o modelo e na segunda parte traz uma breve análise e implicações das classificações resultantes.

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A primeira distinção do modelo está no tipo (não confundir com “tipos de dinheiro” apresentado mais tarde), podendo ser uma “reinvindicação” ou um “objeto”. A forma de dinheiro “em espécie” segue como o mais conhecido tipo “objeto”, mas sua utilização tem caído em diversas partes do mundo (desde economias mais desenvolvidas como na Suécia, passando por economias em desenvolvimento como a Índia e até mesmo economias ainda pouco desenvolvidas como no Quênia). Moedas digitais públicas, como o Bitcoin e as moedas digitais de bancos centrais, como a e-krona, também se enquadram nessa categoria. O segundo tipo, a “reinvindicação”, tem como grande diferença a facilidade de transação: um contrato garante o pagamento. Porém esse sistema demanda complexidades estruturais para realmente garantir o acordo. Nessa classe estão o cartão de débito, o AliPay e possivelmente a Libra (seu white paper sugere um sistema conversível lastreado em uma cesta de ativos seguros de débitos governamentais).

A segunda categoria distingue o valor de liquidação. No caso de uma “reinvindicação” o valor pode ser “fixo” ou “variável”, enquanto para um “objeto” a classificação os distingue entre “unidade de valor” (similar ao valor fixo) e “outros”, visto que as moedas digitais públicas diferem quanto a esse quesito (alguns algoritmos podem, por exemplo, estabilizar mais uma moeda em relação à outra).

A terceira categoria surge da dificuldade estrutural do sistema baseado em “reinvindicações com liquidação de valor fixo”: falhas nos pagamentos podem drenar a confiança e levar o sistema ao colapso e, portanto há a necessidade de uma proteção, seja ela pública (como nos casos dos cartões de débito e os quase finados cheques) ou privada (como é o AliPay). E no caso de liquidação varável? É aqui que a Libra aparece como candidata a suplantar essa dificuldade! “We still have much to learn…” já diria o profeta.

A quarta e última distinção é a tecnologia utilizada e divide os tipos de dinheiro em “centralizados” e “descentralizados”. Aqui que a revolução apresentada pelas DLT´s (distributed ledger technology) mostra sua extraordinária contribuição com novos produtos.

Agora com as categorias apresentadas e definidas, podemos classificar o dinheiro em cinco “tipos de dinheiro”: dinheiro de banco central, criptomoedas, b-dinheiro, e-dinheiro e i-dinheiro. Abaixo um diagrama resumido:

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Libra é uma criptomoeda? Por essa metodologia não. O sistema imaginado pelo Facebook é conversível em moeda local e lastreado em ativos reais e seguros, portanto deve ser classificado como um dinheiro do tipo reinvindicação, diferente de uma criptomoeda como o Bitcoin que não garante a conversibilidade em moeda local, mas tem a garantia de ser um tipo “objeto” e não precisar de proteção para garantir a liquidação. Em vez de uma cripromoeda, a Libra seria classificada como i-dinheiro, ou seja, um ativo voltado para investimentos. O mais importante aqui é a possibilidade do sistema da Libra poder suprimir a necesidade de uma proteção contra falhas de liquidação e trilhar a revolução imaginada pelo Facebook.

Outro ponto que chama atenção é a proximidade conceitual entre os quase finados cheques e o AliPay, visto que é comum colocar o AliPay em uma prateleira similar ao Bitcoin ao ilustrar o novo mundo dos meios de pagamentos. De acordo com o modelo apresentado, a única diferença entre os cheques e o AliPay está na proteção de cada sistema: a proteção pública é feita via regulação dos bancos comerciais (daí o b-dinheiro) enquanto a privada é característica do dinheiro eletrônico (por isso e-dinheiro).

O grupo “dinheiro do banco central” tem uma caracterísitca também peculiar, formado pelo cada vez menos utilizado “dinheiro em espécie” e pelas cada vez mais inevitáveis “moedas digitais dos bancos centrais”. Bancos centrais estão correndo atrás do prejuízo?

Por fim, o modelo apresentado pelo FMI traz um conjunto de definições importantes e permite ilustrar como a regulação pode encarar certos desafios ao classificar de forma clara e objetiva os “tipos de dinheiro”. E o autor deixa um alerta: não há de tardar que as regras desse novo jogo sejam criadas.

FMI. The Rise of Digital Money. 2019. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/fintech-notes/Issues/2019/07/12/The-Rise-of-Digital-Money-47097.

Sobre o Autor:

Thiago Nakashima – Economista formado pela PUC-SP, nascido em 1980, especializado em análise macroeconômica com grande experiência em fundos de investimentos multimercado e consultorias econômicas especializadas em aspectos regulatórios de defesa da concorrência. Seu enfoque acadêmico voltado para inovações schumpeterianas e economia comportamental é fruto de suas raízes na engenharia (passagem pela POLI/USP) e na produção cultural (produtor de música eletrônica).

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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