Cripto Semanal #41

Cripto Semanal #41

Institucional
18 de setembro de 2019 por Fernando Ulrich
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O Cripto Semanal de hoje é uma edição especial e um pouco mais longa que o usual, pois farei um resumo sobre tudo que rolou na terceira edição da Baltic Honeybadger Conference que acontece em Riga, na Letônia. Realizada por Max Keidun e Roman Snitko da exchange Hodl Hodl, o evento é focado principalmente no bitcoin e
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O Cripto Semanal de hoje é uma edição especial e um pouco mais longa que o usual, pois farei um resumo sobre tudo que rolou na terceira edição da Baltic Honeybadger Conference que acontece em Riga, na Letônia.

Realizada por Max Keidun e Roman Snitko da exchange Hodl Hodl, o evento é focado principalmente no bitcoin e em todas as suas derivadas e tem conseguido reunir os principais nomes da indústria desde 2017.

Toda a programação oficial pode ser conferida no site da conferência. Além disso, todas as sessões foram transmitidas ao vivo pelo YouTube e podem ser assistidas aqui e aqui.

Pode-se dizer que as sessões giraram em torno de quatro macro temas: usabilidade, tecnologia, fundamentos econômicos e mercado. Claro que os assuntos acabam se sobrepondo muitas vezes, mas em linhas gerais, esses quatro macro temas abarcam tudo o que foi abordado na Honeybadger 2019.

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Primeiro de tudo, falaremos de usabilidade e tecnologia.

20190918 Tabela - Cripto Semanal #41

Usabilidade e Tecnologia

Um dos grandes entraves para uma maior adoção do bitcoin é justamente a parte de usabilidade, ou “experiência do usuário”, user-friendly interfaces (interfaces mais amigáveis ao usuário). Isso é natural a qualquer tecnologia nascente, mas, é claro, se empreendedores e inventores não criarem soluções nesse sentido, a adoção não acontece.

Houve vários painéis e palestras sobre carteiras em hardware, carteiras com mais privacidade, segurança física para tais carteiras, processadores de pagamentos para o comércio, e o uso da rede de pagamentos Lightning Network.

O criador do Opendime e do Coldcard Rodolfo Novak tratou dos desafios de engenharia e das principais preocupações ao projetar e construir um dispositivo em hardware. Desde quais chips escolher (os elementos de segurança), até quais algoritmos criptográficos usar.

Em questão de “engenharia de segurança”, o objetivo deve ser “aumentar ao máximo o custo assimétrico ao agressor” em termo de tempo e dinheiro. Na visão de Novak, o ideal é adotar o máximo de alternativas open-source, isto é, em que qualquer um pode verificar — e não confiar cegamente — como a carteira hardware de fato funciona.

Obviamente, quando se fala em carteiras digitais há uma miríade de opções, desde hardware wallets até wallets em software, meros aplicativos num smartphone. Nesta última categoria, Ádám Ficsór da Wasabi Wallet dissertou sobre as visões de privacidade quando do uso do bitcoin.

Embora muitos leigos e a imprensa em geral tratem da questão da privacidade como pretexto para contravenções, o propósito de quem a pratica e desenvolve ferramentas para tanto (como a Wasabi Wallet) é exatamente o oposto, isto é, como possibilitar ao usuário um alto grau de segurança para que ele não seja o alvo de agressores.

Àqueles que desejam um elevado nível de segurança, como family offices, indivíduos com um estoque considerável de bitcoins, enfim, qualquer um que precise custodiar somas significativas do ativo digital, uma solução interessante tem sido a da empresa Casa. Numa apresentação bem instigante, o CEO da empresa, Jeremy Welch, elencou “13 ameaças ao seu bitcoin”. Essencialmente, proteger seus bitcoins significa gerir de forma segura as suas chaves privadas. É exatamente esse o foco da Casa.

Em suma, as preocupações em torno da segurança e gestão de chaves privadas serão uma constante. Felizmente, a indústria tem evoluído, mas, obviamente, ainda há um longo caminho pela frente. Até porque, a questão de segurança de chaves privadas só adquiriu a premência que hoje vemos por conta da própria criação do bitcoin em 2008.

Agora, não basta apenas custodiar com segurança se não pudermos transferir e efetuar pagamentos com mais agilidade (de forma segura, é claro) no mundo on e offline. Justamente nessa área que a OpenNode e a BTCPayServer buscam inovar.

Ambas são soluções de pagamentos para comerciantes, empresas, enfim, qualquer um que deseja receber pagamentos em bitcoin na venda de seus produtos. Num painel bem dinâmico, os programadores Rui Gomes (OpenNode) e Nicolas Dorier (BTCPayServer) debateram os principais obstáculos para pagamentos com bitcoin, desde a interface gráfica ao consumidor até a necessidade de abarcar novos comerciantes à tecnologia.

Aproveitando o ensejo, um dos maiores obstáculos do bitcoin é precisamente a escalabilidade. Como abarcar milhões ou bilhões de usuários numa rede como capacidade de processamento limitada? Aí que entra a tão falada Lightning Network (LN), a rede relâmpago.

A LN nada mais é que um protocolo secundário que cria uma rede de canais de pagamentos a partir de transações com multiassinaturas no blockchain do bitcoin. Na prática, a LN permite uma quantidade quase ilimitada de transações em bitcoin, porém, sem precisar liquidá-las a todo instante no blockchain.

Por ser tão promissora, mas ainda incipiente em termos de adoção, houve várias sessões para tratar da LN, como o depoimento de Sergej Kotliar da Bitrefill sobre sua experiência de uso da rede relâmpago no comércio, a palestra de Alex Bosworth da Lightning Labs sobre tarifas de transação e maior privacidade com a LN e, por fim, o painel de discussão com Samson Mow, Alex Bosworth, Max Keidun, Alex Petrov, moderado por Stephan Livera.

Para encerrar esta parte de usabilidade e tecnologia, merece destaque a painel sobre “5 anos de escalabilidade do bitcoin” com Adam Back e Giacomo Zucco.

Para quem não é tão versado nas complexidades tecnológicas de um protocolo de consenso distribuído como o bitcoin, o ritmo de adoção e de desenvolvimento da rede podem ser decepcionantes. Mas quando se compreende o ineditismo do bitcoin, as preocupações de segurança e a enorme dificuldade em escalar uma rede baseada totalmente no uso voluntário sem autoridade central, é realmente incrível o estágio já alcançado pelo bitcoin.

No início das discussões técnicas de escalabilidade, acabou havendo muita controvérsia em torno de quem deve “ditar “as mudanças, quem deve “controlar” a rede. Essas tensões políticas e de governança levaram inevitavelmente à ruptura da comunidade e na criação do Bitcoin Cash e demais forks.

Em síntese, esta foi a mensagem de Back e Zucco: sim, há muito por fazer e para evoluir; contudo, não nos enganemos quanto aos obstáculos e a necessidade de conservadorismo e prudência na manutenção do protocolo base. Escalar, sim, sempre, mas sem perder de vista as propriedades essenciais da tecnologia. O fato inconteste é que escalabilidade impõe “trade-offs”, é fundamental discernir entre aqueles que são inegociáveis daqueles que são maleáveis.

Tendo abordado os temas de usabilidade e tecnologia, voltemos agora nossa atenção aos fundamentos e ao mercado.

Fundamentos e Mercado

Em conversa com o especialista em blockchain e startups Fernando Bresslau, quem também esteve na conferência, comentamos como o preço não esteve presente na maior parte das sessões.

Não que preço não importe, mas parece que as preocupações com relação ao nível de preço do bitcoin ficaram em segundo plano. Se em 2017 estávamos no pico da “bolha” e em 2018 no fundo do poço, este ano o preço não passou de um dado a mais da tecnologia.

Talvez um sinal da maturidade do ecossistema, ou apenas de um mercado que está lateralizando nos últimos meses. Talvez tenhamos chegado a um estágio tal que — por mais que ainda consideremos o bitcoin um experimento tecnológico – já não fazem mais tanto sentido os receios e alertas de que o criptoativo pode valer zero.

Nos painéis sobre OTC (mercado de balcão) e sobre negociação P2P predominaram as discussões acerca das formas de aperfeiçoar os fluxos entre exchanges, mesas de OTC e clientes para trazer maior agilidade e segurança.

Por conta das limitações técnicas do protocolo, transferências entre todos esses players podem levar vários minutos ou até horas. Isso acarreta custos, exposição à volatilidade, perda de oportunidades. Visando contornar esses entraves, vários traders de OTC identificaram as transações multiassinaturas como uma das alternativas interessantes.

Além dessas, a rede Liquid da Blockstream também desponta como uma tecnologia promissora, especialmente para conectar as exchanges oferecendo a possibilidade de liquidações mais rápidas e com relativa segurança.

Houve várias apresentações focadas em questões econômicas, desde teoria monetária até as implicações do bitcoin ao sistema financeiro mundial.

O programador Jimmy Song – apesar de não ser economista – falou sobre a importância do entendimento da inflação e da ingerência dos governos sobre a moeda. Outro programador, Eric Voskuil, discorreu sobre a diferentes teorias monetárias e creditícias, buscando incorporá-las na análise do fenômeno do bitcoin.

Uma das melhores apresentações de cunho econômico foi a do meu companheiro de podcast Matthew Mezinskis (do CryptoVoices) sobre o “Bitcoin como dinheiro base”.

Desde os primeiros anos da rede, muitos entusiastas comparavam o valor de mercado do ativo (estoque x preço) com o agregado monetário M1, por exemplo. Acontece que o M1 considera depósitos bancários, os quais são, em realidade, promessas de entregar dinheiro base, isto é, papel-moeda.

A comparação correta, defendeu o Matthew, deve ser entre base monetária das diversas moedas nacionais e o bitcoin, sem esquecer do estoque de ouro e prata também. Por que adotar esse critério? Segundo ele, tanto o papel-moeda (assim como as reservas bancárias no Bancos Centrais) quanto o bitcoin e ouro são os ativos finais de liquidação, não são promessas de pagar nada, são os próprios ativos.

Nesse sentido, Matthew comparou a base monetária de cada moeda nacional com o estoque de bitcoin e de ouro. Por essa ótica, o bitcoin já pode ser considerado uma das dez maiores moedas do planeta todo. Nada mal.

Aproveitando que falamos do ouro, Hass McCook proferiu uma das palestras mais inusitadas, contrastando a mineração do ouro e do bitcoin. Honestamente, nunca havia parado para refletir sobre esse tema. Porém, com muitos dados (e uma boa dose de irreverência), Hass demonstrou como a mineração do metal precioso historicamente causou (se segue causando) estragos no meio ambiente e, muitas vezes conflitos sociais.

Toda corrida do ouro teve sua parcela de guerras, conquistas, genocídios, trabalho escravo e infantil, enfim, uma série de males condenáveis. A conclusão de Hass é inequívoca: a mineração de bitcoin é não apenas muito menos nociva ao planeta, como também não impõe riscos a todos os envolvidos nessa empreitada. Confesso que essa apresentação me fez pensar.

Por fim, merece destaque a palestra de Saifedean Ammous, autor de “The Bitcoin Standard: the dencentralized alternative to central banking” (O Padrão Bitcoin: a alternativa descentralizada ao banco central), com o título provocativo “Como realmente matar o bitcoin”.

A tese de Saifedean é simples: assim como os bancos centrais e suas políticas monetárias têm contribuído em grande medida para a apreciação e até pela popularização do bitcoin, se as autoridades monetárias reverem o curso e adotarem políticas para fortalecer a moeda, isso pode minar os atrativos do ativo digital.

De certa maneira, Saifedean tem razão. O fato de os BCs mundo afora estarem novamente desvalorizando suas moedas por meio de juros negativos e afrouxamento quantitativo joga muito a favor de ativos escassos como bitcoin e ouro. Isso é inegável. E quanto mais os banqueiros centrais insistem nessas políticas, mais impactadas será a cotação desses ativos.

Portanto, caso haja um cavalo de pau de postura dos BCs, o bitcoin pode não apenas perder valor, como tem uma boa parte do seu apelo.

Concordo parcialmente com Saifedean. Principalmente porque as vantagens do bitcoin não são apenas de cunho monetário, mas também tecnológicas. Tanto por ser inconfiscável (é digital e funciona na internet), quanto por ser mais seguro, rápido e barato de transacionar que as alternativas de pagamentos atuais (bancos, SWIFT, etc.).

Agora, há alguma chance dos BCs mudarem a rota? Francamente, altamente improvável. Não diria zero, mas é próximo. A ciência econômica predominante não admite outra opção. Ademais, os efeitos da grande crise financeira de 2008 ainda estão sendo sentidos. Ainda veremos novas rodadas de afrouxamento quantitativo desvalorizando as moedas nacionais mundo afora.

A mensagem final é que, sim, o bitcoin é crescentemente percebido como parte integrante do mercado financeiro, intrinsecamente ligado a questões macro-econômicas e, cada vez mais, buscado como um novo ativo de proteção.

Estaria o bitcoin se tornando o ativo porto-seguro do século XXI? Talvez. Sim, talvez, incrivelmente. E se for esse o caso, o que você fará a respeito?

Caso tenha perdido alguma carta semanal, clique aqui.

Uma boa semana a todos,
Fernando Ulrich.

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