Dos contratos inteligentes à Criptoeconomia

Dos contratos inteligentes à Criptoeconomia

Criptomoedas
26 de novembro de 2019 por Tatiana Revoredo
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As origens conceituais da plataforma de contratos inteligentes da Ethereum estão no trabalho do economista americano, estudioso jurídico e cientista da computação Nick Szabo. O desenvolvimento de Szabo do esboço do discurso então emergente da Criptoeconomia está entrelaçado com seu relato singular do desenvolvimento de sistemas de troca nas sociedades humanas, uma teoria que ele
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As origens conceituais da plataforma de contratos inteligentes da Ethereum estão no trabalho do economista americano, estudioso jurídico e cientista da computação Nick Szabo.

O desenvolvimento de Szabo do esboço do discurso então emergente da Criptoeconomia está entrelaçado com seu relato singular do desenvolvimento de sistemas de troca nas sociedades humanas, uma teoria que ele expõe de forma mais abrangente em Shelling Out (Szabo 2002).

 Shelling Out apresenta um relato evolucionista do desenvolvimento do dinheiro como meio de troca, em uma narrativa histórica abrangente que retrata um período histórico em que a permuta era a forma predominante de comércio, que evoluiu progressivamente através de sistemas, do ouro e outros metais preciosos ao “dinheiro” em sua forma atual.

Esta teoria popular de mercantilização permanece influente na comunidade blockchain, embora talvez um pouco mais entre a comunidade Bitcoin mais politicamente conservadora do que o campo de engenharia de token normalmente e abertamente pós-capitalista.

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O relato de Szabo sobre a vida econômica das sociedades pré-modernas em Shelling Out, descreve de modo geral o meio de troca como próteses sociais que funcionam para “[desenvolver] nossos cérebros e linguagem como soluções para o dilema do prisioneiro, que impede quase todos os animais de cooperar por meio de reciprocidade com não-parentes“.

Essa referência ao mais conhecido problema da teoria dos jogos, o dilema do prisioneiro, no qual os agentes devem escolher entre cooperação e deserção (com maior utilidade “caso os agentes optem por cooperar), é indicativo da máxima subjacente da Criptoeconomia de que as interações sociais humanas em geral podem ser utilmente reduzidas a mecanismos ou design de jogos de pessoas “(Nash, J. 1950. In: Equilibrium points in n-person games. Proceedings of the National Academy of Sciences, 36 (1), pp.48-49).

A tendência do discurso da Criptoeconomia ser uma mola propulsora abrangente à economia mostra-se evidente nas abordagens sobre economia comportamental de Szabo, para quem o ser humano é um verdadeiro “Homo Cryptoeconomicus” cuja  natureza é predominantemente racional, e a força vital parece vir da participação em jogos econômicos.

Além de contribuir para o esboço da Criptoeconomia, inspirado por pesquisadores como David Chaum, Nick Szabo também buscou constituir (via execução de protocolos criptográficos e outros mecanismos digitais de segurança) uma forte melhora na lei de contratos tradicionais.

Em 1993, ao revelar sua intenção de trazer práticas “altamente evoluídas” para o projeto de protocolos de comércio eletrônico entre desconhecidos na Internet, Nick Szabo cunhou a frase “smart contracts” pela primeira vez.

A idéia básica por trás dos Smart Contracts (contratos inteligentes, numa tradução literal) é que determinados tipos de cláusulas contratuais (como garantias, delimitação de direitos de propriedade etc.) sejam incorporadas ao hardware e software, de maneira que seu descumprimento (se desejado) seja extremamente caro para o “infrator”.

Na prática, esses códigos de computador incorporados ao software trazem um dos princípios definidores da Criptoeconomia contemporânea, segundo o qual violar sistemas de software deve ser proibitivamente caro.

Note que tal princípio é diametralmente oposto à tradição das perspectivas antropológicas do contrato, eis que é a possibilidade de violação e descumprimento que surge como a distinção crítica entre contratos inteligentes e contratos convencionais (executados em linguagem natural e sujeitos ao desempenho humano).

Não é a força da lei que vincula os indivíduos, mas sim o mecanismo material auto-impositivo, intrínseco à existência distribuída do smart contract na blockchain, que é o órgão governante das relações contratuais.

A qualidade das relações entre agentes que usam Smart Contracts e protocolos de consenso criptoeconômicos é reduzida a um artefato de implementação técnica, onde o cumprimento de obrigações é o principal problema que os arranjos sociais, como os mercados, devem resolver.

E ao contrário do que possa parecer, Criptoeconomia não é a aplicação de uma concepção popular de economia (técnicas de previsão de ações e política monetária) às criptomoedas. Suas abordagens combinam criptografia e economia para criar redes peer-to-peer (P2P), descentralizadas e robustas, que prosperam com o tempo, apesar dos adversários tentarem atrapalhar a rede.

O ponto central da Criptoeconomia (e outro aspecto em que diverge dos entendimentos convencionais dos contratos modernos) é a suposição de que os “adversários” sempre tentarão interromper as relações acordadas e que o design de sistemas de incentivo econômico adequados deve ser confiável para garantir sua robustez diante dos “ataques”.

No tocante ao sentido do significado econômico, a Criptoeconomia tem mais em comum com o design de mecanismos, um campo relacionado à teoria dos jogos …

O design do mecanismo é frequentemente chamado de teoria dos jogos reversos, porque parte-se do resultado desejado do design para se criar um jogo onde, se os jogadores perseguirem seus próprios interesses, o resultado obtido será o resultado pretendido pelos idealizadores do design.

Nesse sentido, é interessante perceber o grande potencial que a Criptoeconomia tem de “possibilitar” uma coordenação social em larga escala, projetando jogos econômicos que, em sua essência, instigam o comportamento cooperativo.

É, pois, na delicada construção dos players “como agentes econômicos” em “complexas relações” (mediante tokens de incentivo e gatilhos de comportamento) onde se encontra a “essência” da Criptoeconomia.

O “Homo Cryptoeconomicus” de Nick Szabo pode ter nascido no Blockchain Bitcoin, mas é em plataformas computacionalmente mais completas que ele pode se envolver nos jogos mais complexos da vida econômica tokenizada.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

Sobre o Autor:

Tatiana Revoredo – é CSO na The Global Strategy. Autora do livro Blockchain: Tudo o que Você Precisa Saber e coautora do livro Criptomoedas no Cenário Internacional. Especialista em blockchain pelo MIT e pela University of Oxford.

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