Economia e Bitcoin em face do Coronavirus

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O Coronavirus (ou Covid-19) “aconteceu”. Saber quais as consequências que estão por vir é da maior importância, pois permite que nos preparemos para essas consequências, saber qual a melhor forma de lidar com elas e, em algum grau, nos ajuda a evitá-las. Há consequências de todos os tipos: econômicas, políticas, sociais e até demográficas. No meio desse cenário de caos, é possível que o Bitcoin saia fortalecido, mas o mais provável é que ele será afetado junto com as outras classes de ativos no curto prazo.

Impactos na Economia em geral

É evidente que não é possível prever com exatidão o que vai acontecer – talvez qualquer previsão seja pedir muito. Contudo, é possível analisar algumas das tendências que participam no “cabo de guerra” que existe. Também é possível entender quais as reações que ocorrem nos mercados e na economia de forma geral – o que será necessário para entender o que pode ocorrer com o Bitcoin.

Antes de começar, contudo, é bom pontuar que o desenrolar de tudo o que está acontecendo com os mercados não é necessariamente devido apenas ao vírus. É bem possível que o covid-19 seja apenas um gatilho que expõe as fragilidades da economia mundial, mas vamos deixar isso de lado e analisar apenas o impacto do vírus – do contrário, esse texto seria muito mais longo.

Em primeiro lugar – e é muito importante que isso seja entendido – o impacto de um vírus sobre a economia e a sociedade não é positivo. As razões são muito simples:

A atividade econômica é um grande mecanismo de resolução de problemas. Todos e cada um dos indivíduos possuem desejos que buscam saciar. Ao mesmo tempo, esses indivíduos possuem habilidades diversas que utilizam para resolver – em parte – as dificuldades de outras pessoas. Essa interação entre os indivíduos funciona de forma que cada um busque a melhor trajetória de vida dadas as suas próprias condições, mas sempre depende da resolução dos problemas existentes – naturais ou artificialmente criados. Uma vez que um vírus piora a qualidade de vida – até a coloca sob ameaça de terminar – é evidente que ele se torna mais um problema a ser incluído na longa lista que assombra a existência humana – viver é sofrer.

Ao mesmo tempo, quando um indivíduo contrai a Febre de Wuhan, sua produtividade diminui – por causa dos sintomas que o organismo enfrenta e a possível necessidade de internação. Devido à alta infectividade do vírus, as pessoas mais precavidas estão evitando circular ou ir para o trabalho – seja para não contagiar outras pessoas ou para evitar a própria contaminação. A postura é de distanciamento social – fazer home office, evitar transporte público e translados em geral e minimizar o contato com qualquer pessoa que não seja de casa ou convívio muito próximo. Isso significa que a capacidade produtiva diminui temporariamente. Isso significa que dentre os diversos problemas que poderiam ser resolvidos sem o vírus, apenas alguns poderão ser – e outros ficarão para depois.

Portanto, o vírus não é apenas um novo problema, mas um problema que diminui a capacidade de resolução de problemas da sociedade humana como um todo. Ele torna a situação mais difícil por DOIS motivos. É como estar acostumado a fazer uma maratona e, de repente, precisar fazer uma maratona mais longa (com mais problemas) e com peso extra (com menos capacidade produtiva).

Uma das consequências desse novo cenário é a diminuição das atividades diárias em si, com pessoas se mantendo em casa, cancelamento em massa de shows, eventos, voos, estadias em hotéis e fechamento de fronteiras.

O atenuante nesse cenário é que ele tem um tempo de duração finito: de alguns meses a um ano da economia funcionando no “modo de segurança”. Eventualmente, a pandemia irá acabar e a atividade produtiva será retomada. Isso ficará claro mais cedo ou mais tarde para os indivíduos e pode ser que até aprendamos alguma coisa no processo. Essa é uma oportunidade das atividades econômicas se tornarem mais eficientes. Quais reuniões poderiam ser e-mails? Qual a necessidade de haver deslocamento se grande parte do trabalho pode ser realizado de casa? Quais atividades podem ser feitas de forma digital? Nos próximos meses a capacidade criativa dos seres humanos – coisa que a NASA ainda está para estudar nos brasileiros – será posta à prova e, se sobrevivermos, é grande a chance de estarmos mais resistentes à próxima onda – conceito que Nassim Taleb chama de anti-fragilidade. Aplicativos podem se tornar mais comuns para fazer as compras no supermercado e as indústrias de entretenimento caseiro – como videogames, por exemplo – podem ganhar relevância nos próximos meses. É muito comum analisar as indústrias que são prejudicadas em uma crise e se esquecer que parte da demanda pode se deslocar para outras indústrias – um dinamismo que apenas o a liberdade pode oferecer.

Alguns governos – como o americano e o chinês – reagiram a esse novo cenário com uma injeção de liquidez no mercado, pois todos estão buscando ativos de altíssima segurança – como o dólar. Isso significa que os bancos centrais desses países irão colocar em circulação mais unidades de moeda para manter a atividade econômica de forma a evitar o fechamento de empresas e estabelecimentos comerciais. O que aumentar a quantidade de dinheiro em circulação ajuda no combate de uma epidemia? Não ajuda em nada. Na verdade, atrapalha, pois aumentar a quantidade de dinheiro em circulação – além de não alterar o “output” produtivo do sistema – causará o aumento nos preços de mercado e uma distorção temporária na formação de preços.

Isso não ajuda a aumentar a produção de álcool em gel, mas ajuda a manter em funcionamento os estabelecimentos que não precisamos nos próximos meses – que é o motivo da intervenção. O problema dessa abordagem é justamente direcionar os esforços produtivos para as atividades que no momento não são necessárias, tentando salvá-las. Cada centavo gasto em manter em funcionamento um restaurante sem clientela é um centavo a menos sendo usado no setor hospitalar. Essa decisão pode parecer cruel, mas é apenas o reflexo das opções limitadas que são possíveis na situação atual, os recursos são escassos – não é possível fazer tudo o que desejamos.

Além da injeção de liquidez, houve cortes nas taxas de juros – nos EUA foi à 0. Curiosamente, há mais sentido nessa decisão do que se supõe à primeira vista. A taxa de juros é o preço de mercado para o desejo de se consumir no presente e abdicar desse consumo para investir no futuro. Com a insegurança atual, é perfeitamente aceitável supor que a preferência temporal dos indivíduos tenha se reduzido – tenha se deslocado para abdicar do consumo e se preparar para o futuro.

Isso explica o motivo de tantas bolsas de valores terem caído tão repentinamente. De um momento para o outro, grande parte dos indivíduos decidiu resgatar investimentos voláteis, abdicar de hábitos luxuosos e se preparar para o período de reclusão e baixa atividade econômica dos próximos meses. A crise não foi a semana dos circuit breaks, a crise é o que está por vir.

Essas intervenções irão restringir a característica do livre mercado que mais poderia nos ajudar nesse momento de caos: a velocidade de adaptação. Nas últimas semanas, o cenário como um todo mudou. Pessoas procuram por álcool em gel e alimentos, evitam ir a restaurantes e usar transportes coletivos, dentre muitas outras mudanças. Isso faz com que as indústrias e o comércio busquem se adaptar da melhor forma que cada um ache melhor. O sistema de preços guia a produção das indústrias para satisfazer as novas demandas. As empresas que não tem a capacidade de se adaptar irão diminuir ou cessar operações – é uma infelicidade, eu concordo, mas não há motivo racional para manter em funcionamento uma casa de shows no momento atual. A demanda é por serviços de saúde e alimentação, não de entretenimento ou transporte. Então, naturalmente haverá uma migração/adaptação de uma indústria para a outra. Há um gigantesco potencial empreendedor para fazer essa transição – que já está acontecendo e que precisa acontecer. É necessário enfatizar isso: não há problema nenhum em empresas lucrarem oferecendo serviços ou produtos de saúde, pelo contrário é o que implicitamente todos queremos: recompensar as empresas que ajudam a combater o espalhamento do vírus. O lucro dessas empresas é a recompensa.

Lembre-se que empresas são formadas por pessoas – funcionários, operadores de máquinas, gestores e diretores. Todas essas pessoas estão colocando a própria vida em risco, além da vida de seus familiares, para oferecer os produtos que pode – e vai – salvar a vida de muitos outros. Médicos e profissionais que trabalham sob risco de infecção – que está mais para certeza de infecção – são verdadeiros heróis. É um delírio condenar o lucro que faz com que eles continuem atendendo os doentes e evitando mais mortes.

O momento é de mudança, que é algo difícil e até assustador – e por isso que é tão importante no momento atual. Se quisermos superar essa crise biológica, precisamos deixar o sistema de preços e lucros funcionar livremente. E é nesse ponto que o Bitcoin pode ser tão importante.

Bitcoin versus Coronavirus

Como já adiantei acima, um dos motivos para a queda no preço dos ativos mais voláteis é a necessidade de segurança, coisa que o dinheiro em caixa proporciona da melhor forma. O Bitcoin é um ativo volátil e é perfeitamente razoável que os indivíduos decidam vender seus bitcoins para ter a liquidez do papel moeda fiduciário – com todos os defeitos que ele possui. Até ativos com reputação de serem extremamente seguros – como o ouro – sofreram desvalorizações nas últimas duas semanas, tamanha a necessidade de caixa. Ainda assim, é preciso reconhecer que a queda no preço do Bitcoin é maior do que a queda em outros ativos e índices.

Curiosamente, há algo extremamente positivo do ponto de vista econômico: a velocidade de migrar de um ativo para o outro rapidamente. Todos os recursos concentrados nele se deslocaram para outros ativos em um único dia. Isso libera todos esses recursos para serem utilizados em atividades mais urgentes, o que é ótimo para enfrentar essa crise. Enquanto isso, as bolsas de valores irão sangrar lentamente até que todo o capital alocado nelas seja realocado para as atividades que agora são mais importantes. Concordo que não é nada animador para os investidores das criptomoedas, que viram seus investimentos perderem bastante rentabilidade, mas é preciso lembrar que investir é uma tarefa que envolve lidar com os riscos de um futuro incerto e que seu investimento é tão rentável quanto a contribuição desse ativo em resolver problemas. Bitcoin não é o que o mundo precisa em 2020, é preciso realocar para outras coisas.

Isso só é possível graças à característica ininterrupta do mercado de criptomoedas que funciona 24 horas por dia, até nos fins de semana. É possível antecipar movimentos do mercado de bolsa de valores caso algum evento se desenrole nos finais de semana ou fora dos horários de funcionamento dos mercados convencionais. Aqui há, realmente, um ganho de valor em relação ao mercado de capitais atual, pois há a liberdade de muito mais dinamismo na economia – a reação ao evento ocorre muito mais rapidamente – além de ter como base o mercado do mundo todo, que também agrega muito valor. Uma economia mais dinâmica significa mais velocidade adaptativa para resistir a períodos de estresse, pois fornece o combustível necessário para que empreendedores ataquem os problemas que surgiram “de repente”.

O preço dos ativos reflete a relação entre demanda e oferta deles. No momento, a demanda por bitcoins e criptomoedas não é muito alta devido ao simples fato que ainda é muito difícil fazer compras do dia-a-dia com elas e devido aos demais motivos já explicados acima – apesar da reação surpreendente, não chega a ser um mistério. Por outro lado, no médio prazo – após o perigo da infecção passar – nada impede que os fundamentos da rede impulsionem uma retomada, pelo menos à primeira vista. Afinal, o Bitcoin ainda é – e será por algum tempo, ainda – o maior projeto de computação distribuída do planeta.

É evidente que o Bitcoin tem muito valor a oferecer nesse cenário, já que a essência dele é permitir o pagamento ágil entre indivíduos do mundo todo, sem intermediários. Esse dinamismo que ele oferece pode ser explorado por laboratórios e empresas de saúde através de transações pelo mundo todo. Todos esses centros de pesquisa precisam de financiamento para programas de desenvolvimento de vacinas e remédios que podem salvar vidas, portanto uma forma de adquirir esse financiamento é através do recebimento de bitcoins e outras criptomoedas do mundo todo. Seja com a prestação de serviços futuros ou até mesmo com doações, seja de grandes transações de milionários ou milhões de transações de pequenos grupos. Quando uma cura for descoberta, a produção e a distribuição serão os próximos grandes desafios a serem enfrentados, com a necessidade monumental de recursos e transações monetárias.

Isso nos lembra que o Bitcoin é muito mais do que seu preço – que esteve acima de US$10.000 pela última vez em 24 de fevereiro e registrou mínima na casa dos US$3.850 no dia 13 de março. Com as injeções de liquidez na economia, é questão de tempo até as moedas fiduciárias perderem poder de compra (o que deve ocorrer ao longo dos próximos meses), o que não ocorrerá com o Bitcoin nunca, já que ele é uma moeda com lastro real em criptografia. Por causa disso, é possível que muitas pessoas percebam o quão interessante pode ser o Bitcoin para se proteger de uma intervenção estatal na economia – esse é um cenário possível após lidarmos com a pandemia.

Além disso, essa é a primeira crise financeira com a participação do Bitcoin, é o primeiro grande teste da criptomoeda que nasceu por causa da crise de 2008. Caso a performance dela seja atrativa, há uma confirmação de que os desenvolvedores e entusiastas estão caminhando na direção correta. Caso contrário, não seria tarde para mudar de estratégia e entender o que houve de errado com o que foi feito até aqui. A dificuldade está em separar os efeitos de uma crise financeira (a intervenção estatal nos mercados financeiros e monetários) de uma crise econômica (súbita escassez de recursos em face de um novo cenário mundial, como o surgimento do vírus). Hoje estamos vivendo as duas.

Como era de se esperar, não é possível tirar leite de pedra. O impacto do coronavírus não deve ser menosprezado e está causando uma redução em todos os mercados – por mais entusiasmo que se possa ter com o Bitcoin, ele não é uma exceção nesse cenário e está sim entre os ativos afetados – pelo menos por enquanto.

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Sobre o Autor:

Mathias Kux – Formado em Engenharia Elétrica/Eletrônica pelo Instituto Mauá de Tecnologia, período no qual também organizou uma equipe de xadrez universitário enquanto estagiava em uma grande empresa de telecomunicações. Logo que se formou, decidiu direcionar sua carreira para a área de finanças corporativas, o que o fez entrar na área de planejamento financeiro em uma empresa de energias renováveis, onde está até hoje. Ao longo desse período, conheceu a Escola Austríaca de Economia e o Bitcoin – praticamente ao mesmo tempo. Fez a pós-graduação do Instituto Mises Brasil e outros cursos voltados para a área financeira. De tempos em tempos, também dá palestras sobre alguns desses temas.

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