Mitos VS. Dados: A Ethereum Está Mesmo no “Limite da Capacidade”?

Mitos VS. Dados: A Ethereum Está Mesmo no “Limite da Capacidade”?

Mercado e Tendências
29 de agosto de 2019 por Felipe Santana
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Em matéria publicada nesta segunda-feira, a Bloomberg alertou: a Ethereum está próxima de sua capacidade máxima. Vitalik Buterin (o co-fundador da moeda) teria admitido preocupações quanto à escalabilidade em entrevista a um veículo canadense. No mais, a popularização do Tether na Ethereum estaria sobrecarregando a rede – a moeda estável sendo responsável por 16 vezes
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Em matéria publicada nesta segunda-feira, a Bloomberg alertou: a Ethereum está próxima de sua capacidade máxima.

Vitalik Buterin (o co-fundador da moeda) teria admitido preocupações quanto à escalabilidade em entrevista a um veículo canadense. No mais, a popularização do Tether na Ethereum estaria sobrecarregando a rede – a moeda estável sendo responsável por 16 vezes mais taxas a mineradores que o infame jogo CryptoKitties.

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A justaposição de dois eventos (não-relacionados) induz o leitor a inferir causalidade: “a Ethereum está entupida (por conta) de transações de Tether”.

Abaixo, usaremos dados públicos para dar contexto à manchete. A ideia não é confirmar ou refutar a narrativa – mas te municiar para que tire conclusões por conta própria.

  1. A Ethereum está SIM sobrecarregada – mas faz tempo, e já esteve mais

A matéria da Bloomberg aponta que “a rede atingiu 90% de sua capacidade“. A fonte é um indicador que divide o gasto computacional despendido por mineradores (gas used) pelo limite de recursos que eles se dispõe a oferecer (gas limit). 

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O número 90% não é mentira. Mas também não é um fato relevante. Como você vê no gráfico abaixo, foi atingido pela primeira vez em meados de 2017.

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Há outras medidas mais práticas do impacto causado por eventual sobrecarga na rede. Entre elas, estão os custos de se transacionar na rede e a quantidade de transações “na fila” a qualquer dado momento.

Abaixo, você vê como o custo mediano por transação (em escala logarítmica) ainda está distante do pico de janeiro de 2018 (quando culminou a febre dos CryptoKitties).

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                                                                                                                                   Fonte: BitInfoCharts
  1. O “limite” da Ethereum é dinâmico, e pode ser mudado a qualquer hora

O limite de “informação que cabe” em cada novo bloco da Ethereum não é especificado em bytes, como no Bitcoin, mas através de um “gas limit“. 

Gas é uma medida do esforço computacional requerido para se executar uma transação (cada transação pode representar uma infinidade de funções diferentes). A imposição de um limite dessa forma garante que, mesmo que um usuário possa executar transações das mais diferentes complexidades, os próximos blocos terão um peso e um tempo de propagação previsível – o que acaba mitigando vetores de ataque e facilitando a vida de mineradores.

Na Ethereum, mineradores podem “votar” para alterar o gas limit do bloco, de maneira relativamente simples. Mudanças não são incomuns – ao contrário do Bitcoin, onde esse parâmetro já foi tema de disputas e cisões na rede. Veja abaixo como o gas limit por bloco foi ajustado ao longo dos últimos 4 anos.

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                                                                                                                 Fonte: Etherscan

O fato de que a quantidade de gas consumida por bloco está próxima do gas limit dos blocos denota que os mantenedores estão fazendo um bom trabalho em determinar o limite. É claro que o gas limit não pode ser aumentado ad eternum (por diversas razões), mas o bom usufruto da capacidade computacional oferecida a usuários não é uma notícia ruim.

  1. O Tether (ainda) é um nanico na Ethereum, para fins de “sobrecarga”

Uma das razões citadas pela Bloomberg à sobrecarga da rede é o Tether, moeda estável supostamente lastreada em dólares. 

Popular entre traders, circulava exclusivamente na forma de um token dentro da rede do Bitcoin, até o começo de abril. Foi aí que a companhia por trás da moeda lançou uma versão nativamente implementada na Ethereum – isto é, aderente ao padrão ERC20, que descreve boa parte dos tokens mais populares, e que garante compatibilidade com um ecossistema de serviços financeiros (que os mais apegados a buzzwords chamariam de “#DeFi“).

O uso do Tether ERC20 vem de fato crescendo rápido – superando as 100 mil contas únicas envolvidas em transações da moeda, por dia (veja abaixo). Mas ainda é cedo para afirmar qualquer tendência: o lançamento oficial foi há menos de um mês.

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                                                                                                                          Fonte: Etherscan

O contrato do Tether tem sido o que mais gasta em taxas a mineradores (ou seja, o que mais “compra gas) nos últimos 30 dias, dentre todos contratos ativos:

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                                                                  Fonte: ETHGasStation

A Bloomberg assinala o fato de que o gasto deste contrato em taxas é 16x maior que o do principal contrato do CryptoKitties, jogo de gatinhos colecionáveis que ficou popular no verão de 2017/18, e que foi apontado como principal responsável por atrasos e “entupimentos” na rede.

No entanto, a comparação usa dados atuais dos dois contratos. O CryptoKitties é um jogo inane, no contexto dessa análise. Comparar qualquer coisa com ele é bater em cachorro morto. Veja o declínio no número de usuários (contas) ativamente interagindo com o jogo por dia, ao longo do tempo:

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                                                                                                                     Fonte: DappRadar

Usemos um parâmetro mais representativo para contextualizar a significância dos gastos do contrato do Tether: os ~U$270.000 despendidos nos últimos 30 dias equivalem a menos de 10% do total de taxas recebidas por mineradores no mesmo período.

  1. A comparação com o CryptoKitties até pode funcionar… mas o Tether é menos “oneroso” para a rede

Uma comparação que justifica a equivalência do Tether ERC20 ao CryptoKitties é a de volume de transações (em número absoluto) – quando se olha para o auge do CryptoKitties (virada 2017/2018) e o momento atual do Tether ERC20 (agosto de 2019):

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                                                                                                                                                                                 Fonte: Etherscan

Ambos os contratos foram alvo de algo em torno de 100 mil transações por dia, em tais períodos (é bem verdade que os números do Tether podem continuar subindo).

No entanto, como já vimos antes, a Ethereum hoje não apresenta taxas de transação anômalas. Tampouco a fila de transações demonstra distúrbio, assim como o intervalo entre blocos.

A razão pela qual os CryptoKitties congestionaram a rede há 2 anos atrás reside na complexidade das funções que seus contratos permitiam executar. Como já vimos, transações na Ethereum tem um preço previsível em gas, associado ao custo de se executá-la – quanto mais complexa, mais custosa (o gas, por sua vez, tem um preço variável em $ETH).

Os contratos do CryptoKitties compunham um sistema intrincado, que permitia a usuários realizar transações para não só transferir, mas também emprenhar, casar, leiloar e emprestar seus ativos criptográficos (no caso, gatinhos virtuais).

No gráfico abaixo, você vê a heterogeneidade nas chamadas que não eram uma mera transferência (`transfer`), e que chegaram a constituir mais de metade do volume bruto do final de 2017. As chamadas relativas a funções de contratos do CryptoKitties estão em verde:

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                                                                                               Fonte: Alethio (gráfico interativo aqui)

Essas chamadas custam 5, 10, até 20 vezes mais (o número exato depende de uma série de fatores) que uma transferência comum de token ERC20 – tipo ao qual pertence a esmagadora maioria de transações envolvendo o Tether ERC20.

    5. Peraí, mas o VItalik não disse que a Ethereum “está lotada” (“is full“)?

Sim, e vem dizendo isso há algum tempo.

Vitalik – assim como muitos outros desenvolvedores da Ethereum – não se refere exclusivamente a limites de efeito surtido no curtíssimo prazo.

A maior preocupação é com o peso do estado histórico da rede – arquivo que todo nó que almeja ser 100% soberano precisa baixar, e constantemente sincronizar (uma vez que ele é apendido a cada novo bloco). Devido (em parte) ao leque flexível de transações que permite – como emprenhar um gatinho, e outras que vimos acima -, a Ethereum vê seu estado crescer muito mais rápido que o estado do Bitcoin, por exemplo.

Se o crescimento for incontido, chega um momento em que a operação de um nó completamente soberano fica restrita a mantenedores de infraestrutura de ponta, e a rede, efetivamente centralizada.

Não existe uma fronteira binária, mas um espectro ao longo do qual o estado vai crescendo, e o número de nós independentes na rede, caindo.

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                                                             Fonte: Etherscan (referente à implementação da Parity)

Como o gráfico acima acusa, o estado da Ethereum vem “engordando” praticamente linearmente.

Para resolver o problema, os arquitetos da Ethereum preparam uma série de mudanças a serem implementadas no tão prometido – e tanto adiado – update Serenity, programado para começar no ano que vem.

Mas isto é tema para outro artigo. Este aqui já chegou no “limite de capacidade” dele.

Sobre o Autor:

Felipe Santana – É sócio-fundador da Paradigma Capital e analista do mercado. Liderou o time da Paratii, pioneiro no Brasil a trabalhar com as redes IPFS e Ethereum, e co-produziu a série documental Around the Block. Teve artigos publicados na Token Economy e no Token Daily, Já participou de podcasts como o Software Engineering Daily e o The Bitcoin Podcast, e esteve entre os 25 autores mais populares na categoria “Bitcoin”, no Medium, em 2018.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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