O dólar vai subir… no longo prazo

O dólar vai subir… no longo prazo

Criptomoedas
21 de março de 2019 por XDEX
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Todos os dias verificamos um dos preços mais importantes da economia, talvez o mais importante: a taxa de câmbio. Quanto vale o real em termos do dólar? Subiu, caiu? Mas quase nunca nos perguntamos: o câmbio está caro ou barato? Aliás, é possível chegar a essa resposta? A verdade é que, sim, é possível avaliar
Banner sobre a alta do dólar no longo prazo

Todos os dias verificamos um dos preços mais importantes da economia, talvez o mais importante: a taxa de câmbio. Quanto vale o real em termos do dólar? Subiu, caiu? Mas quase nunca nos perguntamos: o câmbio está caro ou barato? Aliás, é possível chegar a essa resposta? A verdade é que, sim, é possível avaliar o quão sobre- ou subvalorizado está o câmbio e é justamente isso o que buscarei demonstrar neste artigo.

O que determina a taxa de câmbio.

Primeiro, o básico sobre a teoria: o que determina a taxa de câmbio é a razão entre o poder de compra relativo entre duas moedas. Essa é a chamada teoria da paridade do poder de compra (PPC) entre moedas.

Por exemplo, usando dois produtos idênticos em duas jurisdições e dividindo o preço de cada, chegamos à taxa de câmbio pela paridade de poder de compra. O BigMac por aqui custa R$ 16,90 e nos EUA sai por cerca de US$5,58; dividindo os dois preços temos câmbio de R$ 3,03 opor US$1,00. Se você quer saber mais, recomendo assistir a este vídeo.

Mas é bastante limitado usar um único preço para chegarmos ao câmbio pela teoria da PPC. Por este motivo, o mais correto seria utilizar um indicador que busque mensurar o poder de compra da moeda coletando os preços de diversos bens e serviços numa economia. Índices de preços ao consumidor (como o nosso conhecido IPCA) são os mais comumente adotados para medir a evolução do poder de compra do dinheiro.

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Baseado nessa lógica, o Bacen divulga um índice chamado de TCR (Taxa Real de Câmbio) que busca capturar a variação relativa entre o índice de inflação americano (CPI, consumer price index, índice preços ao consumidor) e o nosso IPCA. Começando a série em junho de 1994 (jun=100), início do real, podemos verificar o quão descolado da paridade de poder de compra está o câmbio vigente.

Dito de outra forma, a teoria da PPC nos indica qual seria o câmbio de equilíbrio segundo apenas os fundamentos, isto é, a depreciação relativa entre as duas moedas. Mas como o câmbio também é constantemente negociado, especulado, arbitrado no mercado, a taxa de equilíbrio dificilmente é verificada na prática.

Analisando a TCR, uma leitura do índice acima de 100 sugere uma subvalorização (o câmbio de mercado está mais depreciado do que a variação do poder de compra justificaria); uma leitura abaixo de 100 implica o oposto, uma sobrevalorização.

Os pontos de descolamento da taxa de equilíbrio.

Desde 1994, é interessante notar os dois grandes momentos em que o câmbio descolou excessivamente da taxa de equilíbrio: em outubro de 2002 (206,11) no auge dos temores com o futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o câmbio chegou a quase R$ 4,00, e em julho de 2011 (61,56) quando a economia brasileira estava no seu ápice de crescimento e confiança internacional e o dólar bateu R$ 1,54.

XDEX - Tabela da Taxa de Câmbio Real (TCR) pelo IPCA

A TCR nos permite chegar a outra conclusão: a taxa de câmbio de equilíbrio. Conforme vemos no gráfico abaixo, quando o dólar bateu quase R$ 4,00 em 2002, a taxa de equilíbrio estava em cerca de R$ 2,00. Ou, quando a moeda americana caiu cerca de R$ 1,54, em julho de 2011, a taxa de equilíbrio se situava acima de R$ 2,50.

XDEX - Tabela o câmbio atual próxima à taxa de câmbio de equilíbrio

Através dessa análise, é possível também calcularmos o quão sobre- ou subvalorizado está o câmbio em termos percentuais.

XDEX - Tabela pela TCR de jan/19

 

O índice Big Mac.

Outra forma de chegarmos a conclusões similares é utilizando o índice Big Mac compilado pela revista britânica The Economist. Pela ótica do Big Mac, a tendência de sobre ou subvalorização acompanha aquela verificada pela TCR.

XDEX - Tabela o índice do BigMac

O entendimento da paridade do poder de compra, isto é, dos determinantes da taxa de câmbio no longo prazo, nos permite inferir inclusive a trajetória futura do dólar. De que maneira? Explico.

Olhando os gráficos, é nítida a constante divergência entre o dólar de mercado, aquele que está sendo negociado todos os dias, e o cálculo da taxa de equilíbrio. Essa realidade reside no fato de que o câmbio vigente está constantemente sendo arbitrado pelo mercado. Notícias de programas de governo podem influenciar a percepção dos mercados sobre o futuro da economia, fazendo com que o câmbio antecipe desvalorizações ou valorizações futuras.

Contudo, e essa é a parte essencial, o câmbio tende a convergir para a taxa de equilíbrio no longo prazo. A PPC exerce uma espécie de força gravitacional em que o câmbio inevitavelmente reverte à média (ou à taxa de equilíbrio) sempre que há um descolamento dos fundamentos do câmbio (entendido aqui como as variações entre o poder de compra relativo entre as duas moedas).

Notem que a média histórica da TCR é de 97,2, sugerindo exatamente o ponto acima, na média, o câmbio de mercado orbita próximo à taxa de equilíbrio.

XDEX - Tabela da Taxa de Câmbio Real

Voltando à trajetória do dólar, se é a razão entre o poder de compra relativo que determina o câmbio, e o nosso Bacen tem como meta inflacionar o real a uma taxa de de 4,25% (pelo IPCA) em 2019, 4,00% em 2020 e 3,75% de 2021 a 2023, enquanto o Federal Reserve pretende perseguir uma meta de 2,00% ao ano, isso significa que o dólar tende a se valorizar (o real se deprecia) no longo prazo. Projetando esses diferenciais de inflação (perda do poder de compra), chegamos a uma taxa de equilíbrio de R$ 3,84 ao fim de 2023.

XDEX - A tendência do câmbio é de permanente depreciação

Agora, prever qual será o câmbio nos próximos meses é algo muito mais complicado, pois exige não apenas antever os movimentos do Federal Reserve e do Bacen em termos de política monetária, como também antecipar como o mercado perceberá essa conjuntura.

A julgar pelo comunicado da última reunião do FOMC (Comitê de Política Monetária do Fed) no dia 20 de março de 2019, a postura do Fed será mais frouxa ou possivelmente expansionista, num cenário em que até mesmo quedas de juros são possíveis nos próximos meses. Das demais moedas de reserva (euro, yen, libra), se verifica políticas semelhantes de cada autoridade monetária.

Dada essa conjuntura, o dólar não tende a se valorizar mundialmente.

Fernando Ulrich,
Analista-Chefe da XDEX.
www.xdex.com.br

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