O império contra-ataca?

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O segundo semestre de 2019 reservou uma mudança de direção da política monetária dos bancos centrais ao redor do globo. O Federal Reserve voltou a cortar sua taxa básica de juros após mais de três anos de um ciclo de aperto monetário, continua a aumentar o tamanho de seu balanço com impressão maciça de dólares e aumentaram as dúvidas sobre a atual eficácia da flexibilização monetária para aquecer a economia. O anúncio da Libra, moeda digital do Facebook, agitou os noticiários, teve ampla repercussão entre os banqueiros centrais e fomentou pesquisas sobre como esse novo tipo de ativo poderia ajudar na transmissão da política monetária para a economia real. Será que estamos perto de vivenciar lançamentos das CBDCs (central bank digital currencies)?

O BIS (Bank of International Settlements) tem feito pesquisas anuais a respeito da possibilidade da criação das CBDCs entre os bancos centrais do mundo. Em janeiro desse ano o BIS publicou o resultado para a pesquisa feita em 2019 e o cenário continua similar com o ano anterior: a maioria dos bancos centrais possuem estudos em andamento, mas poucos estariam dispostos a dar um passo adiante e lançar suas próprias moedas digitais. Os mais dispostos são bancos de economias emergentes e a motivação principal passa pela melhoria nas condições de inclusão financeira de sua população. Portanto, se conclui que os principais formuladores de política monetária não estão muito dispostos a encarar uma empreitada na direção de criarem suas próprias moedas digitais, confere? Hummm…. nem tudo que reluz é ouro.

Eis que no final de janeiro, seis bancos centrais de economias desenvolvidas, criaram um grupo para estudar potenciais casos para o uso dos CBDCs em seus países, sendo eles o Banco Central do Canadá, Banco Central da Inglaterra, Banco Central do Japão, Banco Central Europeu, Banco Central da Suécia e o Banco Central da Suíça. Enquanto isso, o Banco Central da China, afirmou que tem caminhado de forma suave no desenvolvimento de uma moeda digital lastreada pelo governo.

A última novidade no tema foi anunciada pelo Banco Central da Suécia, no dia 20 de fevereiro, com o lançamento de um piloto sobre o uso da e-krona, uma moeda digital lastreada pelo banco sueco. De acordo com a publicação, o “objetivo do projeto é mostrar em um ambiente de teste como a e-krona poderia ser usada pelo público em geral. Essa solução técnica será baseada na DLT, muitas vezes referida como tecnologia de blockchain”. E qual seria a real razão do interesse do banco sueco? O próprio responde: “A principal razão para que a e-krona tenha se tornado tão relevante é a rápida queda no uso do dinheiro físico visto na última década.” Interessante…

Alguns aqui podem afirmar: mas então os bancos centrais não estão propriamente preocupados com a falta de eficácia de suas políticas monetárias. Vejamos… As características intrínsecas do dinheiro, em sua forma física, resultam em um impedimento teórico para formuladores de política monetária ao impossibilitar cortes de juros para o território negativo. A explicação é simples: caso a taxa de juros sobre os depósitos seja negativa, as pessoas tenderiam a segurar todas suas disponibilidades de dinheiro em forma física, pois isso traria vantagem sobre os depósitos. Em compensação, se uma economia for do tipo “cashless”, haveria a tendência de uso dos valores em depósito para que não haja incidência dos juros negativos sobre esses saldos e, dessa forma, a economia aqueceria. Capisce?

Não podemos tirar conclusões precipitadas e achar que agora os bancos centrais descobriram como aquecer a economia com taxas de juros negativos e por isso vão adotar rapidamente as moedas digitais. Mas também é ingênuo pensar que eles irão ficar apenas pesquisando o tema em um mundo onde as mudanças tecnológicas e comportamentais são colocadas em prática a uma velocidade jamais vista. O império dos bancos centrais estaria preparando um contra ataque contra a ideia revolucionária das moedas digitais descentralizadas? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bank of International Settlements. Impending arrival – a sequel to the survey on central bank digital currency. 2020. Disponível em: https://www.bis.org/publ/bppdf/bispap107.pdf

Sveriges Riksbank. The Riksbank´s e-krona pilot. 2020. Disponível em: https://www.riksbank.se/globalassets/media/rapporter/e-krona/2019/the-riksbanks-e-krona-pilot.pdf

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Sobre o Autor:

Thiago Nakashima – Economista formado pela PUC-SP, nascido em 1980, especializado em análise macroeconômica com grande experiência em fundos de investimentos multimercado e consultorias econômicas especializadas em aspectos regulatórios de defesa da concorrência. Seu enfoque acadêmico voltado para inovações Schumpeterianas e economia comportamental é fruto de suas raízes na engenharia (passagem pela POLI/USP) e na produção cultural (produtor de música eletrônica).

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