O novo paradigma do Bitcoin – Parte 2

O novo paradigma do Bitcoin – Parte 2

Tecnologia
18 de setembro de 2019 por Fernando Bresslau
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Paradigma 2: disseminação gratuita da informação No primeiro texto dessa série de 3 textos sobre os paradigmas do Bitcoin eu mostrei como a invenção dos computadores trouxe a era digital e como essa digitalização tornou coisas que tinham um custo significativo (livros, CDs, fotografias, etc.) ridiculamente baratas. Mas esse foi só um dos paradigmas que
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Paradigma 2: disseminação gratuita da informação

No primeiro texto dessa série de 3 textos sobre os paradigmas do Bitcoin eu mostrei como a invenção dos computadores trouxe a era digital e como essa digitalização tornou coisas que tinham um custo significativo (livros, CDs, fotografias, etc.) ridiculamente baratas. Mas esse foi só um dos paradigmas que criou o paradigma atual da era da informação, o paradigma da abundância.

Depois dos computadores, suas fitas magnéticas, seus disquetes e DVD-Roms, veio a conexão desses computadores entre si. Aquilo que hoje chamamos de internet, mas também engloba o telex, fax, redes de telefonia celular.

Se já era barato fazer a cópia de um filme, não era tão fácil assim fazer com que o filme chegasse às mãos dos seus espectadores. Para ver um filme, tínhamos de ir ao cinema, comprar a fita ou DVD ou alugá-lo em uma videolocadora. Tudo isso tem um custo: a produção da mídia física, sua embalagem, a distribuição pelos países, estados, cidades, bairros, lojas, até o consumidor final. Os custos de multiplicação da mídia de suporte e a sua distribuição faziam com que bandas talentosas assinassem contratos draconianos com as gravadoras. Afinal, essas gravadoras, apostando no sucesso futuro da banda, gastavam muito dinheiro alugando estúdios de gravação, prensando e distribuindo CDs, fazendo propagandas de shows e divulgando a banda para os DJs das rádios. Um grupo de 4  ou 5 pessoas jovens não tinha como financiar a produção de centenas de milhares de CDs. Muito menos a capacidade de fazer com que esses CDs chegassem às mãos de milhões de pessoas.

Um arquivo digital não tem essa barreira. Já vimos que, para fazer uma cópia, basta dar CTRL+C e CTRL+V. Para baixar de um site, basta apertar um botão, clicar em um torrent ou receber via Bluetooth do celular do amigo. Pode demorar um pouco, mas, em geral, não nos custa mais nada além da assinatura da internet, muitas vezes só limitada em sua velocidade, não em seu volume.

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Esse é o paradigma da distribuição instantânea (ou quase): agora que se tornou muito mais fácil criar conteúdo digital, o acesso a esse conteúdo também é fenomenalmente fácil: basta ler no Medium, comentar no Twitter, assistir no YouTube ou visualizar no Instagram. Para se ter acesso a informação capaz de transformar vidas, basta ter acesso à Internet. E para se tornar um Influencer, basta saber onde postar e como divulgar. Continua sendo difícil e custando muito trabalho, mas é mais acessível a um indivíduo ou a um pequeno time ou empresa.

A transformação que isso trouxe foi radical e brutal. Se, por um lado, sabemos que o acesso à informação via plataformas de ensino ou mesmo vídeos caseiros de YouTube transformaram o destino de muitas pessoas e suas famílias, também vimos quão sangrenta foi a batalha da indústria musical nos anos de 2000 e quão difícil foi para essa indústria achar um caminho aparentemente viável através do streaming.

Mas esse é o paradigma essencial da internet, o paradigma da abundância. Se todos sabem que é ridiculamente barato criar uma cópia de um conteúdo digital e essa cópia pode ser entregue ao destinatário final instantaneamente, não parece haver motivo para pagar por esse conteúdo.

Se um cantor famoso se recusa a colocar suas músicas no Spotify, o consumidor pode decidir dar mais atenção ao artista que gravou seus shows e os colocou no YouTube. Se o livro de receitas da Dona Benta parece muito caro, há milhões de receitas disponíveis na Internet para consulta gratuita.

O paradigma da abundância é fenomenal, especialmente para a distribuição de informação livre, open source, técnica, científica. Para que gastar 5 anos em uma faculdade de ciências da computação se eu posso aprender a programar um app através de how tos da Internet? Ou mesmo em cursos online gratuitos da Universidade de Stanford? Tudo está a uma busca de distância.

Mas esse paradigma traz alguns problemas:

  • Abundância de informação significa a abundância de informação de todos os níveis de qualidade. Para cada artigo bem escrito e pesquisado, há milhares de artigos mal feitos ou, simplesmente, errados. Como separar o joio do trigo? Não basta só achar, é necessário saber avaliar o conteúdo que se quer consumir.
  • Se tudo na Internet é de graça, como ganhar dinheiro com isso? A resposta encontrada foi oferecer conteúdo de graça subsidiado pela oferta de anúncios aos consumidores. Além de tornar a experiência de consumo ruim, isso coloca os criadores de conteúdo, as plataformas de distribuição e os consumidores em conflito de interesses. O resultado são propagandas abusivas, o vazamento de dados e a manipulação das pessoas, como vimos no caso do Facebook, Cambridge Analítica e as eleições nos últimos 2 a 3 anos.

Nos últimos 5 anos começamos a ouvir que a “Internet está quebrada”. Que uma rede de abundância, acessível a todos, financiada inicialmente como bem comum se tornou um espaço de riscos e perigos, dominado por algumas poucas corporações e controlado por governos, especialmente os autoritários.

Esse cenário distópico já era previsto pelos cypherpunks, cientistas, pesquisadores, programadores envolvidos na criação da Internet e extremamente focados na privacidade digital através da criptografia. Para eles, que queriam manter o caráter aberto, inclusivo e seguro da Internet, era de suma importância criar ferramentas de criptografia para garantir a privacidade individual, como PGP, ou Pretty Good Privacy, protocolo de troca de mensagens critpografadas.

Um outro objetivo deles, muito mais difícil de se alcançar, era criar uma forma de dinheiro digital privada e independente de terceiros intermediadores. Esse objetivo só foi alcançado, em partes, com a invenção do Bitcoin por Satoshi Nakamoto, que criou seu próprio paradigma, totalmente novo e assunto do próximo texto dessa série. Até lá!

Sobre o Autor:

Fernando Bresslau – Especialista em investimento, estratégia e operação de startups digitais, focado em criptomoedas e blockchain e na implantação de startups estrangeiras no Brasil. Formado em engenharia pela USP com MBA na Alemanha, Inglaterra e Canadá, trabalha com Venture Capital desde 2011 e com criptomoedas desde 2016, com especial interesse em segurança de carteiras de criptoativos.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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