O novo paradigma do Bitcoin – Parte 1

O novo paradigma do Bitcoin – Parte 1

Tecnologia
4 de setembro de 2019 por Fernando Bresslau
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Quando me perguntam se eu acredito que Bitcoin tem futuro, eu respondo que não sei prever preço, mas que tenho certeza de que o Bitcoin mudou o mundo de uma maneira tão profunda que eu resolvi apostar a minha carreira nesse tema. Mas essa mudança, justamente por ser tão profunda, não é tão evidente. O
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Quando me perguntam se eu acredito que Bitcoin tem futuro, eu respondo que não sei prever preço, mas que tenho certeza de que o Bitcoin mudou o mundo de uma maneira tão profunda que eu resolvi apostar a minha carreira nesse tema.

Mas essa mudança, justamente por ser tão profunda, não é tão evidente. O Bitcoin criou um paradigma novo e, para melhor evidenciá-lo, vale a pena olhar para dois paradigmas importantes do século XX. Para isso, vou fazer uma curta série de 3 textos, começando com esse.

Paradigma 1: desmaterialização do mundo físico

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Até a invenção dos computadores digitais, tudo no mundo, com exceção dos pensamentos, era físico, feito de átomos e tinha um custo de produção, ou um CMV: custo da mercadoria vendida. Muitas coisas, como carros, casas, ferramentas, roupas, comida, etc., continuam nesse paradigma do custo físico e, aparentemente, não sairão dele. Pelo menos não até que abandonemos nossas vidas no mundo real e migremos para o mundo totalmente virtual, como em Matrix, ou Snow Crash.  Afinal, cada vez mais, as nossas “coisas” baseadas em informação, são desmaterializadas e, conseqüentemente, tendem ao custo zero.

Os exemplos mais claros disso foram as indústrias da música, do cinema, dos livros e da fotografia. No paradigma anterior, era caro tirar foto. Cada uma das 24 ou 36 poses do filme analógico eram cuidadosamente tiradas, para evitar pagar o filme e a revelação de uma foto ruim. E o custo não era baixo, portanto, fotografia era coisa de adulto, de preferência de classe média para cima. Muitas ainda se lembram da ansiedade na hora de ir buscar as fotos na Fotótica e a decepção ao descobrir que a foto saiu desfocada, torta, ou que o filme queimou.

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Com a invenção da câmera digital, hoje em dia tiramos foto de qualquer coisa, a qualquer momento, por mais trivial que seja. Pois não temos mais o custo de produção do filme ou revelação da foto. E fazer uma cópia de uma foto digital é apenas uma operação banal de computação. A fotografia se tornou tão acessível e tão barata que levou a Kodak, antes uma das maiores marcas do mundo, à sua prática extinção.

Fazer cópia de uma música em MP3, um filme em MP4 ou um livro em ePub também tem custo marginal zero. Se sabemos que o custo de se fazer uma cópia é zero, o nosso comportamento de consumo muda e não estamos mais dispostos a pagar 30 reais por um CD ou 100 reais por um DVD. A pirataria de conteúdo se tornou normal e socialmente aceita, causando um massacre de empresas paradas no paradigma da materialização de propriedade intelectual.

Para reverter isso, não foi fácil. Primeiro a cópia era baseada na troca de disquetes entre amigos. Foram inventados vários esquemas de proteção de cópia, como números de série, mídias especiais e até aparelhinhos para se plugar entre o computador e o monitor para evitar a proliferação de cópias de software, por exemplo. O DVD de um país não tocava no aparelho do outro.

E essa luta foi ingrata: criou uma guerra entre usuários e empresas, aumentando ainda mais a desconfiança natural entre os pequenos consumidores e as grandes empresas o que, convenhamos, não é muito favorável ao desenvolvimento de mais consumo.

Mas, a “informação quer ser livre” e acaba sendo. A força da informação digitalizada é tão forte que, combatê-la é um tanto quanto tapar o sol com a peneira. A salvação da indústria de música e filmes não foi combater a disseminação da informação: mas torná-la mais fácil e cômoda. Não pagamos por Deezer, Spotify, Netflix ou Amazon vídeo por não conseguir o conteúdo gratuitamente em outro lugar. Pagamos por ser mais fácil achar uma música no Spotify do que no eMule. Ou por ser mais seguro baixar um filme no Netflix do que um arquivo de origem duvidosa em um site de torrent. E, claro, a maioria das pessoas não quer ser um pirata de conteúdo. Ao pagar por esses conteúdos ficamos dentro da lei e dormimos com menos preocupação.

Mas o efeito da digitalização, virtualização e desmaterialização é muito mais poderoso do que livrar o espaço da prateleira de CDs do seu quarto. A partir do momento em que cópias digitais têm custo zero, essa diminuição de custo se espalha pela economia toda e libera recursos para novas atividades, tecnologias e produtos.

Imagine um fabricante de carros que precisa alterar um pequeno detalhe em uma peça importante de um carro popular. Antes da digitalização, o desenho antigo em papel era buscado, a maior parte dele copiada, às vezes à mão, o detalhe modificado e seu número de versão atualizado. A partir dessa nova versão, um número enorme de cópias precisava ser feito, a grande custo, e levado para cada uma das fábricas, departamentos e engenheiros envolvidos na produção dessa peça.

Ou pensemos em um programa de conscientização de saúde. Um professor visita diversos postos de saúde e tem que levar consigo cartazes e panfletos para dar a sua palestra. Se há computadores com projetores nos locais das suas aulas, o custo desse material pode desaparecer. E não só isso, ele pode utilizar mais slides, mais fotos, um vídeo de exemplo, tornar sua apresentação mais clara. Cópias dessa apresentação podem ser deixadas, de graça, em cada posto de saúde, que podem distribuir para quem tiver interesse.

Escrever um livro no computador se torna muito mais barato, fácil e eficiente. Gasta-se menos papel, menos fita de tinta, uma palavra errada pode facilmente ser corrigida, parágrafos inteiros apagados ou incluídos. O processo de produção literária se torna muito mais acessível, em diversos níveis. Você pode pensar em um livro. Mas o mesmo se aplica para uma planilha de modelagem financeira, uma ilustração publicitária, a edição de uma música ou qualquer tipo de criação intelectual humana.

Ao separar o custo de produção de uma obra do custo de sua mídia física, demos um passo grande em direção a um novo paradigma: o paradigma da abundância. Ao eliminar o custo da cópia dessa obra, demos um segundo passo enorme em direção ao mesmo paradigma.

Mas os avanços não pararam por aí. No próximo texto falaremos de distribuição.

Sobre o Autor:

Fernando Bresslau – Especialista em investimento, estratégia e operação de startups digitais, focado em criptomoedas e blockchain e na implantação de startups estrangeiras no Brasil. Formado em engenharia pela USP com MBA na Alemanha, Inglaterra e Canadá, trabalha com Venture Capital desde 2011 e com criptomoedas desde 2016, com especial interesse em segurança de carteiras de criptoativos.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

 

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