O que são os dados “on-chain” e por que você deveria se importar?

O que são os dados “on-chain” e por que você deveria se importar?

Tecnologia
2 de outubro de 2019 por Luiz Ramalho e Renato Shirakashi
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O que seria possível fazer se pudéssemos ver como o dinheiro se move no mundo? Sabendo como se comportam os fluxos financeiros para diferentes ativos, os movimentos de oferta e demanda que determinam o preço ficariam evidentes. Como investidores, essa ferramenta seria indispensável. Infelizmente, não é assim que o mundo funciona. A maneira como o
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O que seria possível fazer se pudéssemos ver como o dinheiro se move no mundo? Sabendo como se comportam os fluxos financeiros para diferentes ativos, os movimentos de oferta e demanda que determinam o preço ficariam evidentes. Como investidores, essa ferramenta seria indispensável.

Infelizmente, não é assim que o mundo funciona. A maneira como o dinheiro se move passa por muitos sistemas que são fechados, pouco transparentes e que não conversam entre si. Porém, dentro da economia cripto, isso é diferente.

Um dos aspectos mais interessantes das blockchains públicas como a do Bitcoin é a sua natureza aberta. Todas as transações entre os endereços são observáveis e ficam registradas de forma permanente na blockchain. Esses registros são os chamados “dados on-chain”

Pode-se pensar os dados on-chain como um registro histórico da economia de cada criptomoeda. Transações representam transferências de valores, em um determinado ponto do tempo.

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Para ficar mais claro, podemos fazer uma analogia com o e-mail. Um e-mail enviado gera, de forma simplificada, os seguintes dados:

  • Remetente
  • Destinatário
  • Conteúdo
  • Data

No caso do Bitcoin, dentre os dados gerados por uma transação, temos os seguintes:

  • Um remetente (o endereço que envia os bitcoins)
  • Um destinatário (o endereço que recebe os bitcoins)
  • Um conteúdo (o número de bitcoins enviados e o “troco” recebido)
  • Uma data associada ao e-mail (o ponto no tempo onde aconteceu a transação)

De maneira (bastante) simplificada, esses são os dados on-chain. Mas qual a utilidade desse tipo de dado?

É difícil pensar em outro tipo de ativo onde consegue-se ver de forma tão transparente o fluxo financeiro. Essa riqueza de dados começou a ser usada, mais recentemente, para a geração de métricas para previsão ou análise do preço do Bitcoin.

A ideia básica é que nos fluxos financeiros está contido a decisão dos agentes que participam dessa economia e, observando seu comportamento e o preço, poderemos ter insights sobre a oferta ou demanda de bitcoins em determinado ponto do tempo.

Alguns exemplos:

  • Do estoque de moedas existentes, quantas não se moveram mesmo depois da queda de mais de 85% do Bitcoin em 2017/18 (dica: mais de 25%)?
  • Em média, os investidores que estão vendendo suas moedas agora, estão em lucro ou prejuízo?
  • Qual é a média de idade das moedas que estão sendo movidas agora? São HODLers antigos ou mais recentes?

São muitas perguntas interessantes que podem ser respondidas com dados on-chain. Quando combinados aos demais dados de mercado, temos uma maneira muito mais intuitiva e científica de se analisar e antecipar os movimentos de preço do que puramente a análise gráfica, que ainda é tão utilizada nesse mercado.

Desafios

A descrição que fizemos anteriormente, no entanto, simplifica muitos aspectos que os leitores mais técnicos já devem ter identificado. Na prática, quando vamos tentar extrair os dados diretamente da blockchain, nos deparamos com um sem-número de desafios, como por exemplo:

  • O remetente e o destinatário podem ser a mesma pessoa ou organização
  • O valor transferido (número de bitcoins x preço) não é um numero determinístico, pois não existe, a todo momento e em todo o mundo, um preço único para o bitcoin. Ele varia bastante entre exchanges
  • Nem todas as transações ocorrem on-chain. Muitas acontecem dentro dos ambientes das corretoras, por exemplo

Além da busca de sentido econômico para as métricas, outro desafio bastante complexo é de ciência de dados. Há que se limpar e padronizar os dados para que as métricas obtidas possam ser utilizadas pra nossos objetivos.

Futuro

No último ano uma explosão de interesse por dados on-chain aconteceu entre os investidores, e acreditamos que isso deve continuar se intensificando. A complexidade e riqueza da blockchain deverá crescer ainda mais, e novos desafios, intuições e comportamento dos agentes que transacionam tendem a aparecer.

A natureza competitiva do mercado também atua aqui – a medida que uma determinada métrica é passa a ser usada pelos traders, ela vai progressivamente perdendo sua eficácia preditiva. É uma permanente corrida de gato e rato.

No entanto, para os que gostam de se aventurar pela interseção de ciência de dados e economia comportamental, a exploração desses dados é um diferencial para o investidor em um mercado cada vez mais competitivo.

Esse texto é o primeiro de uma série onde vamos explorar algumas das principais métricas on-chain.

Sobre os autores:

Renato Shirakashi – CIO na Polvo Capital, empresa que desenvolve estratégias quantitativas para investimento em criptomoedas. Pesquisador da área de on-chain, criou diversas métricas que são padrão do mercado, como SOPR, MSOL e URPD. Anteriormente foi co-founder da empresa Scup (vendida para a americana Sprinklr em 2015). Formado em Ciência da Computação pela USP

Luiz Ramalho – CEO na Polvo Capital. Trabalhou anteriormente no banco de investimentos Goldman Sachs e no fundo americano Blackstone. Formado em Economia pela PUC-Rio.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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