Operando o ciclo de corte de juros

Operando o ciclo de corte de juros

Mercado e Tendências
30 de outubro de 2019 por Thiago Nakashima
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Em dezembro de 2015 o Banco Central dos Estados Unidos (FED) anunciou um aumento de 0,25 p.p. em sua taxa de juros referencial após nove anos de manutenção da taxa e de uma agressiva política de expansão monetária. A chamada normalização monetária foi evoluindo e a taxa de juros americana chegou ao patamar de 2,50
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Em dezembro de 2015 o Banco Central dos Estados Unidos (FED) anunciou um aumento de 0,25 p.p. em sua taxa de juros referencial após nove anos de manutenção da taxa e de uma agressiva política de expansão monetária. A chamada normalização monetária foi evoluindo e a taxa de juros americana chegou ao patamar de 2,50 % a.a. em dezembro de 2018. No entanto, a atividade global fraca e a escalada das tensões comerciais (entre EUA e China) e políticas (como o infindável Brexit) forçaram os bancos centrais mundias a reformularem seus planos e voltarem para um ciclo de afrouxamento monetário em 2019. De acordo com a teoria clássica, ciclos de cortes de juros favorecem ativos de risco e com isso a pergunta: o atual ciclo de afrouxamento monetário será positivo para os preços das moedas digitais?

O gráfico abaixo traz as séries temporais do preço em USD do Bitcoin (BTC) e da taxa de juros do FED.

BTC vs US Rates

Verifica-se que o comportamento das séries no período entre Jan/17 e Nov/17 é similar à observada a partir de Mai/19: ciclo de alta de juros favoreceu o preço do BTC em 2017 e o atual ciclo de cortes tem pressionado negativamente o preço do BTC. Em contrapartida o comportamento em 2018 e no início de 2019 dificulta o entendimento de uma possível relação entre as séries.

O ano de 2018 foi simbólico para as moedas digitais ao sofreram quedas expressivas durante o período. Logo em janeiro a CoinCheck, maior corretora de moedas digitais do Japão, foi hackeada e perdeu algo em torno de USD 550 milhões. Uma sequência negativa de notícias afundou ainda mais os preços, como a proibição de publicidade de ICO´s (innitial coin offerings) por parte do Facebook, Google e Twitter. Esse cenário ajuda a entender a queda sofrida pelo BTC em 2018; assim como a recuperação exibida no início de 2019 tem relação com o fim de notícias ruins quanto ao mercado e uma percepção de que o futuro caminha para a utlização em massa dessa nova tecnologia (a mudança no tom adotado pelo BIS é gritante).

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Ok. Mas e a teoria clássica? Por que nos outros períodos o preço do BTC não caminhou como um ativo de risco deveria se comportar? A principal questão ainda está no baixo volume financeiro operado e na alta fragmentação. Apesar de ser um ativo de risco, as moedas digitais ainda não são parte fundamental nos portfolios dos big players mundiais como bancos e gestoras e, por isso, dependem mais da atividade real (isto é, dinheiro sobrando no bolso das pessoas) do que das expectativas do mercado (que norteiam as decisões dos big players). Aí sim conseguimos entender o porquê das moedas digitais ainda não se beneficiarem com ciclos de cortes e juros: como a fluxo é altamente dependente de algum saldo disponível, uma atividade acelerando é o melhor cenário para as moedas digitais atualmente. E, infelizmente, o ciclo atual de afrouxamento tem como cenário base uma atividade global muito enfraquecida e ainda com muitas incertezas quanto à sua recuperação.

Agora vamos aumentar o zoom e analisar como o preço do BTC se comportou no mesmo dia das decisões de política monetária do FED. Aqui a relação monetária clássica parece funcionar! Na maioria dos casos o preço do BTC cai quando há aumento de juros e sobe quando há cortes.

BTC vs FED Rates

Voltemos então à nossa pergunta: o atual ciclo de afrouxamento monetário será positivo para os preços das moedas digitais? No curto prazo a resposta mais provável deva ser um não, mesmo que a teoria indique que ativos de risco (como são consideradas as moedas digitais) se beneficiem de ciclo de corte de juros. O fluxo financeiro ainda é baixo e muito fragmentado, dependendo mais das condições da atividade real do que de expectativas contidas nas decisões de política monetária. Em contrapartida existem grandes chances de operações na semana e especialmente no dia das decisões de política monetária. Fiquem atentos!

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Sobre o Autor:

Thiago Nakashima  – Economista formado pela PUC-SP, nascido em 1980, especializado em análise macroeconômica com grande experiência em fundos de investimentos multimercado e consultorias econômicas especializadas em aspectos regulatórios de defesa da concorrência. Seu enfoque acadêmico voltado para inovações schumpeterianas e economia comportamental é fruto de suas raízes na engenharia (passagem pela POLI/USP) e na produção cultural (produtor de música eletrônica).

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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