Os Bancos Centrais precisam de criptoativos?

Os Bancos Centrais precisam de criptoativos?

Mercado e Tendências
22 de outubro de 2019 por Tatiana Revoredo
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OCDE: Dinheiro centralizado versus dinheiro descentralizado A Libra, cujo projeto já foi comentado em outro artigo, trouxe à baila fervorosos debates mundo afora que parecem estar longe de acabar. É importante observar, contudo, que a maior contribuição da Libra até agora parece ter sido antecipar uma idéia que começou a se desenhar no Fórum Econômico
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OCDE: Dinheiro centralizado versus dinheiro descentralizado

A Libra, cujo projeto já foi comentado em outro artigo, trouxe à baila fervorosos debates mundo afora que parecem estar longe de acabar.

É importante observar, contudo, que a maior contribuição da Libra até agora parece ter sido antecipar uma idéia que começou a se desenhar no Fórum Econômico Mundial de 2018: uma moeda digital dos Bancos Centrais.

Na ocasião, Benoît Couré (membro do Conselho executivo e responsável pelas políticas do Banco Central Europeu) afirmou, em discurso, “o que Bitcoin nos diz como banqueiros centrais é que nossos sistemas de pagamento são muito caros e muito lentos e temos que agir sobre isso; precisamos de melhores pagamentos transfronteiriços, porque é bom para o desenvolvimento e isso é bom para a inclusão financeira” (Revoredo, T. & Borges, R; 2018, In: Criptomoedas no Cenário Internacional, Amazon).

Nessa linha, o BIS – que atua como um banco central para bancos centrais – está apoiando os esforços dos bancos centrais globais para pesquisar e desenvolver moedas digitais com base nas moedas fiduciárias nacionais.

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Em fevereiro deste ano, o Easter Caribbean Central Bank (ECCB) foi um dos primeiros a emitir uma moeda digital, em parceria com a empresa de fintech Bitt Inc., sediada em Barbados. E já há rumores de que o People´s Bank of China (PBoC) emitirá sua moeda digital em novembro.

Falar em moeda digital de Bancos Centrais está na moda, e foi tema de destaque no Fórum Global de Políticas de Blockchain da OCDE.

O evento ocorreu em Paris no mês passado e, reuniu reguladores e legisladores do mundo todo para debater sobre os impactos da tecnologia blockchain como inovação financeira. Lá, discutiu-se sobre a ameaça de Libra para a soberania monetária das nações, e os possíveis impactos da emissão da moeda digital pelo PBoC. Também, foi questionado se o ideal não seria uma moeda digital de reserva global federada ou multilateral, e se o bitcoin não poderia ser uma “moeda” de reserva global alternativa.

Claro que, devido à complexidade do tema, o evento serviu mais para maturar os pensamentos sobre os temas abordados.

Nessa linha, ficou evidente como novas tecnologias como blockchain, inteligência artificial e análise de big data estão transformando serviços financeiros de maneira fundamental e estrutural, assim como estão transformando outros aspectos da sociedade em um nível comparável à revolução industrial.

Mas voltando às moedas digitais emitidas pelos bancos centrais… Uma moeda digital se confunde com criptoativo?

Aqui, o importante é entender a diferença entre “dinheiro” centralizado e descentralizado.

O dinheiro centralizado (moeda digital) é respaldado pelo governo, seja físico ou digital. Já o dinheiro descentralizado (criptoativo) não possui uma autoridade central, não existe um controlador central que emita ou controle um criptoativos. Ele é respaldado pela blockchain cujas estruturas usam de criptografia, redes peer-to-peer e mecanismos de consenso para conferir confiança às transações registradas em sua rede.

Assim, os bancos centrais emitem moedas digitais (moeda centralizada representando moeda fiduciária) e não criptoativos (que são “criadas” por uma blockchain e aceitas como alternativa ao dinheiro e aceitas como a representação de um valor por uma comunidade virtual)

Em outras palavras, Bancos Centrais não precisam de criptoativos.

Note que, em um mundo monetário centralizado, os criptoativos permaneceriam à margem.

Em um mundo “descentralizado”, os bancos centrais (responsáveis pela política monetária e regulação do dinheiro) teriam de adotar criptoativos.

Sabendo disto, o que muitos começam a questionar é: a economia peer-to-peer em todo o mundo crescerá o suficiente, atingindo um ponto em que governos não mais possam ignorá-la ou promover ativamente a transferência de valor? Como será a política monetária em um mundo descentralizado?

Sobre o Autor:

Tatiana Revoredo – CSO na the Global Strategy, fundadora da Oxford Blockchain Foundation; Especialista em blockchain pelo MIT e pela University of Oxford.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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