Quanto vale um bitcoin?

XDEX - Quanto vale um bitcoin

No Cripto Semanal #12, comentei sobre algumas métricas de avaliação do bitcoin. A cada ano surgem novas ideias. A mais recente, e que destacamos na dita carta, foi publicada pela Adamant Capital de Tuur Demeester.

Investidores e entusiastas mundo afora estão na busca por metodologias adequadas para valorar esse ativo digital desde o início da rede. Descobrir a resposta da pergunta “quanto vale um bitcoin?” é o santo graal dos investidores de cripto; embora ainda não o tenhamos encontrado, o fato é que nos aproximamos cada vez mais dele.

Nesta postagem, a equipe da Adamant Capital introduz novas ferramentas que permitem ao investidor medir conceitos fundamentais do sistema: como o sentimento do investidor, as trocas de posições entre os poupadores (“hodlers”) e a vivacidade da rede.

Além disso, os autores compilaram um breve histórico das diferentes tentativas de se valorar um bitcoin. A primeira ideia, de julho de 2010, se baseou em usar uma estimativa do custo de energia elétrica de mineração para calcular o “valor” potencial de um bitcoin. Desde então seguiram-se diversas outras, conforme elencadas no artigo.

Algumas destas acompanhamos rotineiramente na área de research da XDEX, como o “valor realizado” (realized cap), “valor da rede” (network value), e o “valor da rede/força computacional”, desenvolvido por mim há alguns anos.

O problema é que a maior parte dessas metodologias — senão todas — consiste mais em identificar potenciais descolamentos do valor de equilíbrio que estimar o potencial de valor futuro; elas buscam mais determinar se estamos no topo ou na depressão. Elas buscam responder às perguntas: “estamos num momento de euforia e excesso, onde uma queda é iminente?” ou “estamos no ápice do pessimismo e no piso, onde um rally é provável”? Mas nada dizem sobre o potencial futuro, ou até onde pode ir o preço do bitcoin, se Lua, Saturno, ou Osasco.

Quando falamos de ações, o chamado “valor justo” (fair value) é calculado levando em conta premissas de desempenho futuro, premissas de crescimento do negócio, de ganho de market share, de eficiência; enfim, projete o futuro, traga a valor presente e você chegará ao “valor justo”. Neste sentido, a valoração de ações é prospectiva.

Mas como aplicar isso a um ativo não gerador de caixa, que não rende nada? Essa dificuldade de valoração não se restringe ao bitcoin. Em realidade, ela está presente há anos, décadas, séculos, no ativo monetário mais antigo do planeta: o ouro. Pesquise sobre as diferentes modalidades de se valorar o ouro e você certamente concluirá que nenhuma é satisfatória. O único consenso é a falta de consenso.

O que distingue o ouro do bitcoin é o enorme histórico de descoberta de preço (milênios), incomparavelmente superior ao do ativo digital. Temos muito mais confiança de que o preço do metal está próximo do “justo” do que no caso do bitcoin.

Determinar “quanto vale um bitcoin” é cada vez menos adivinhação e mais ciência. Existem muitas métricas capazes de fornecer indícios confiáveis (não infalíveis) de momentos de excesso (alta fragilidade) e momentos de depressão (baixa fragilidade).

A pergunta mais relevante agora é “quanto pode valer um bitcoin”, qual o seu valor justo. Para tanto, a pesquisa de valoração deve ser mais prospectiva que retrospectiva. Precisamos desenvolver mais metodologias para estimar difusão e adoção futuras do recorrer somente ao retrovisor ou no estado atual da rede.

Ironicamente, uma das formas de se estimar o valor potencial do bitcoin é usando o próprio ouro como proxy. Por exemplo: se 5% do valor de mercado total do ouro (cerca de US$ 420 bi) migrasse para o bitcoin, cada unidade deveria valer ao redor de US$ 23,3 mil. Mas, se não há consenso sobre a valoração do próprio ouro, seria correto fundamentar o valor do bitcoin no do metal?

Também é essencial para a valoração do bitcoin (e do ouro) estimar como se comportará o outro lado da moeda, isto é, como as moedas fiduciárias (sobretudo o dólar) serão impactadas pelas políticas monetárias dos Bancos Centrais. Se é o dólar a unidade de conta mundial, caso ela venha a ser depreciada, isso tende a refletir positivamente no preço dos demais bens, serviços e ativos — bitcoin e ouro inclusive.

Pois bem, hoje não trago respostas, provoco apenas a reflexão.

Fernando Ulrich,
Analista-Chefe da XDEX.
www.xdex.com.br

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