Resumo da Baltic Honeybadger – Segunda Parte

Resumo da Baltic Honeybadger – Segunda Parte

Mercado e Tendências
18 de setembro de 2019 por Fernando Ulrich
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No primeiro post nos detivemos aos temas de usabilidade e tecnologia. Nesta sequência, vamos voltar nossa atenção aos fundamentos e ao mercado. Fundamentos e Mercado Em conversa com Fernando Bresslau, quem também esteve na conferência, comentamos como o preço não esteve presente na maior parte das sessões. Não que preço não importe, mas parece que
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No primeiro post nos detivemos aos temas de usabilidade e tecnologia. Nesta sequência, vamos voltar nossa atenção aos fundamentos e ao mercado.

Fundamentos e Mercado

Em conversa com Fernando Bresslau, quem também esteve na conferência, comentamos como o preço não esteve presente na maior parte das sessões.

Não que preço não importe, mas parece que as preocupações com relação ao nível de preço do bitcoin ficaram em segundo plano. Se em 2017 estávamos no pico da “bolha” e em 2018 no fundo do poço, este ano o preço não passou de um dado a mais da tecnologia.

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Talvez um sinal da maturidade do ecossistema, ou apenas de um mercado que está lateralizando nos últimos meses. Talvez tenhamos chegado a um estágio tal que — por mais que ainda consideremos o bitcoin um experimento tecnológico – já não fazem mais tanto sentido os receios e alertas de que o criptoativo pode valer zero.

Nos painéis sobre OTC (mercado de balcão) e sobre negociação P2P predominaram as discussões acerca da formas de aperfeiçoar os fluxos entre exchanges, mesas de OTC e clientes para trazer maior agilidade e segurança.

Por conta das limitações técnicas do protocolo, transferências entre todos esses players podem levar vários minutos ou até horas. Isso acarreta custos, exposição à volatilidade, perda de oportunidades. Visando contornar esses entraves, vários traders de OTC identificaram as transações multiassinaturas como uma das alternativas interessantes.

Além dessas, a rede Liquid da Blockstream também desponta como uma tecnologia promissora, especialmente para conectar as exchanges oferecendo a possibilidade de liquidações mais rápidas e com relativa segurança.

Houve várias apresentações focadas em questões econômicas, desde teoria monetária até as implicações do bitcoin ao sistema financeiro mundial.

O programador Jimmy Song – apesar de não ser economista – falou sobre a importância do entendimento da inflação e da ingerência dos governos sobre a moeda. Outro programador, Eric Voskuil, discorreu sobre a diferentes teorias monetárias e creditícias, buscando incorporá-las na análise do fenômeno do bitcoin.

Uma das melhores apresentações de cunho econômico foi a do meu companheiro de podcast Matthew Mezinskis (do CryptoVoices) sobre o “Bitcoin como dinheiro base”.

Desde os primeiros anos da rede, muitos entusiastas comparavam o valor de mercado do ativo (estoque x preço) com o agregado monetário M1, por exemplo. Acontece que o M1 considera depósitos bancários, os quais são, em realidade, promessas de entregar dinheiro base, isto é, papel-moeda.

A comparação correta, defendeu o Matthew, deve ser entre base monetária das diversas moedas nacionais e o bitcoin, sem esquecer do estoque de ouro e prata também. Por que adotar esse critério? Segundo ele, tanto o papel-moeda (assim como as reservas bancárias no Bancos Centrais) quanto o bitcoin e ouro são os ativos finais de liquidação, não são promessas de pagar nada, são os próprios ativos.

Nesse sentido, Matthew comparou a base monetária de cada moeda nacional com o estoque de bitcoin e de ouro. Por essa ótica, o bitcoin já pode ser considerado uma das dez maiores moedas do planeta todo. Nada mal.

Aproveitando que falamos do ouro, Hass McCook proferiu uma das palestras mais inusitadas, contrastando a mineração do ouro e do bitcoin. Honestamente, nunca havia parado para refletir sobre esse tema. Porém, com muitos dados (e uma boa dose de irreverência), Hass demonstrou como a mineração do metal precioso historicamente causou (se segue causando) estragos no meio ambiente e, muitas vezes conflitos sociais.

Toda corrida do ouro teve sua parcela de guerras, conquistas, genocídios, trabalho escravo e infantil, enfim, uma série de males condenáveis. A conclusão de Hass é inequívoca: a mineração de bitcoin é não apenas muito menos nociva ao planeta, como também não impõe riscos a todos os envolvidos nessa empreitada. Confesso que essa apresentação me fez pensar.

Por fim, merece destaque a palestra de Saifedean Ammous, autor de “The Bitcoin Standard: the dencentralized alternative to central banking” (O Padrão Bitcoin: a alternativa descentralizada ao banco central), com o título provocativo “Como realmente matar o bitcoin”.

A tese de Saifedean é simples: assim como os bancos centrais e suas políticas monetárias têm contribuído em grande medida para a apreciação e até pela popularização do bitcoin, se as autoridades monetárias reverem o curso e adotarem políticas para fortalecer a moeda, isso pode minar os atrativos do ativo digital.

De certa maneira, Saifedean tem razão. O fato de os BCs mundo afora estarem novamente desvalorizando suas moedas por meio de juros negativos e afrouxamento quantitativo joga muito a favor de ativos escassos como bitcoin e ouro. Isso é inegável. E quanto mais os banqueiros centrais insistem nessas políticas, mais impactadas será a cotação desses ativos.

Portanto, caso haja um cavalo de pau de postura dos BCs, o bitcoin pode não apenas perder valor, como tem uma boa parte do seu apelo.

Concordo parcialmente com Saifedean. Principalmente porque as vantagens do bitcoin não são apenas de cunho monetário, mas também tecnológicas. Tanto por ser inconfiscável (é digital e funciona na internet), quanto por ser mais seguro, rápido e barato de transacionar que as alternativas de pagamentos atuais (bancos, SWIFT, etc.).

Agora, há alguma chance dos BCs mudarem a rota? Francamente, altamente improvável. Não diria zero, mas é próximo. A ciência econômica predominante não admite outra opção. Ademais, os efeitos da grande crise financeira de 2008 ainda estão sendo sentidos. Ainda veremos novas rodadas de afrouxamento quantitativo desvalorizando as moedas nacionais mundo afora.

A mensagem final é que, sim, o bitcoin é crescentemente percebido como parte integrante do mercado financeiro, intrinsecamente ligado a questões macro-econômicas e, cada vez mais, buscado como um novo ativo de proteção.

Estaria o bitcoin se tornando o ativo porto-seguro do século XXI? Talvez. Sim, talvez, incrivelmente. E se for esse o caso, o que você fará a respeito?

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