Um banco de criptomoedas faz sentido?

Um banco de criptomoedas faz sentido?

Mercado e Tendências
19 de agosto de 2019 por Fernando Bresslau
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Dizem que o Bitcoin veio para acabar com os bancos. E que as criptomoedas devolvem às pessoas a possibilidade de ter o controle total sobre o seu patrimônio, com alta segurança. Se isso for verdade, haverá a necessidade de bancos em um futuro onde as criptomoedas consigam substituir o dinheiro estatal em grande parte ou,
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Dizem que o Bitcoin veio para acabar com os bancos. E que as criptomoedas devolvem às pessoas a possibilidade de ter o controle total sobre o seu patrimônio, com alta segurança. Se isso for verdade, haverá a necessidade de bancos em um futuro onde as criptomoedas consigam substituir o dinheiro estatal em grande parte ou, até, totalmente?

De fato, é muito mais fácil você guardar uma grande quantia de dinheiro em bitcoin do que em dinheiro vivo, ouro ou, até mesmo, diamantes. Para guardar dinheiro vivo, ouro, diamantes é preciso, no mínimo, um cofre de boa qualidade. Ou um apartamento e um número grande de malas, caso o valor seja alto. Comprar ouro hoje em dia até que se tornou bastante simples. Mas você saberia por onde começar para comprar diamantes com o intuito de reserva de valor? Eu não.

Com criptomoedas, é possível guardar o seu patrimônio em um dispositivo como o seu smartphone ou o computador, em uma carteira de papel ou, e essa é sempre a minha sugestão, em uma hardware wallet específica como a Trezor, por exemplo. O bitcoin estará em seu poder e, se bem guardado, você tem acesso ao seu dinheiro 24 x 7, sem depender do site do banco, do horário comercial, do tempo de transferência de uma doc. Pode, inclusive, se proteger de casos extremos (mas possíveis) como erros do banco (vide Inter e o problema dos saldos recentes) ou de um confisco do governo (como em Chipre ou no plano Collor). Com uma hardware wallet e seu backup bem feito, você também estará bem protegido de hackers.

Uma das principais funções dos bancos é guardar nosso dinheiro e patrimônio em seus cofres ou sistemas eletrônicos. Se grande parte da economia rodar em bitcoin, vamos deixar de usar esse serviço?

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Certamente os bancos perderão importância nessa função. Muitas pessoas e empresas se sentirão confortáveis em guardar, elas mesmas, valores cada vez maiores em criptomoedas. Mas o negócio de custódia não desaparecerá.

Guardar criptomoedas com segurança não é, ainda, muito fácil ou simples. Representa uma relação entre autonomia e controle sobre o próprio patrimônio, o esforço em protegê-lo e o risco de perda dessas criptomoedas, por falha própria ou ação de terceiros. Um sistema de segurança de criptomoedas robusto pode envolver uma ou mais hardware wallets, o backup das suas palavras-semente em meio físico, um ou mais cofres ou locais seguros para armazenamento disso tudo, números de acesso (PINs) e senhas adicionais e um entendimento muito claro de como tudo isso funciona.

Ter a possibilidade de ser o único guardião do seu dinheiro pode ter um valor muito alto, dependendo das circunstâncias de cada um. Poder fazer isso de maneira digital, sem depender de terceiros, é inédito! Portanto, vale a pena entender como carteiras de criptomoedas e seus backups funcionam, pensar em sua segurança digital e aplicar o aprendizado na sua própria realidade. Mas cada um sabe o quão importante isso é e o que acha mais conveniente, ou menos arriscado.

É completamente legítimo chegar à conclusão de que o esforço de montar um esquema seguro de armazenamento de criptomoedas não vale a pena frente ao valor sendo protegido. Outros podem acreditar que o risco de cometerem algum erro em algum dos passos de recuperação das criptomoedas é mais alto do que o risco de um problema de acesso ao seu patrimônio no banco, seja em dinheiro estatal, seja em criptomoedas.

Eu mesmo, no início do meu aprendizado sobre bitcoin, preferi manter as minhas poucas frações em um serviço de custódia especializado em criptomoedas, com cofres digitais em servidores sem conexão à internet em um bunker num túnel nos Alpes italianos protegidos por guardas armados com metralhadoras e seus cães treinados. Pelo menos, é assim que eu imaginava a infraestrutura dessa empresa de custódia de criptomoedas. Na prática, acessava tudo por um site ou aplicativo.

Estava claro para mim que eu não entendia muito bem como funcionavam as carteiras de bitcoin, como fazer seus backups, como restaurar esses backups em caso de perda da carteira, etc. Eu tinha receio que, se fizesse um backup errado, ou instalasse um software malicioso, ou usasse uma senha fraca, eu poderia perder os meus preciosos pedacinhos de bitcoin. Então preferi confiar nesse serviço especializado, ciente do risco de que poderia acordar um dia, tentar acessar o site para resgatar minhas criptomoedas e descobrir que a empresa tinha desaparecido com meu pequeno tesouro. Naquele momento, essa escolha me parecia sensata.

Em suma, faz sentido a criação de “bancos” especializados na custódia de criptoativos. Os próprios bancos estabelecidos podem decidir oferecer esse serviço aos seus clientes. Afinal, é uma questão de escolha entre autonomia e risco. Eu posso ter uma grande autonomia, mas ter que arcar com o trabalho extra que isso implica e ser responsável pela perda em caso de falha. Eu posso também escolher terceirizar esse trabalho e essa responsabilidade para uma empresa especializada nisso, e pagar por isso em dinheiro e perda de controle.

O ponto fundamental é que, com o advento do bitcoin, hoje em dia nós temos o poder de escolha.

Sobre o autor:

Fernando Bresslau – Especialista em investimento, estratégia e operação de startups digitais, focado em criptomoedas e blockchain e na implantação de startups estrangeiras no Brasil. Formado em engenharia pela USP com MBA na Alemanha, Inglaterra e Canadá, trabalha com Venture Capital desde 2011 e com criptomoedas desde 2016, com especial interesse em segurança de carteiras de criptoativos.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da XDEX ou de seus controladores.

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